Denis Ferreira Netto/Estadão
Denis Ferreira Netto/Estadão

Caruso, profissão teatro

Ator, autor e diretor, Marcos Caruso faz 40 anos de carreira e estreia peça 'Em Nome do Jogo' em Curitiba e São Paulo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2013 | 02h09

CURITIBA - "Vai parecer meio bobo o que vou dizer", ressalva Marcos Caruso, antes de começar a falar. Ele responde a perguntas que dão conta de sua trajetória profissional: a história de quem, há 40 anos, trocou o diploma da Faculdade de Direito do Largo São Francisco pelos palcos.

Mas, afinal, como dar conta de décadas em palavras? "Se tivesse que resumir tudo isso eu diria o seguinte: o teatro é a minha praia. Eu posso pegar uma onda na televisão, no cinema, como autor de novelas. Mas, depois que essas ondas todas passam, o lugar para onde eu volto, onde finco a minha prancha e coloco os meus pés na areia é nessa praia", comenta o ator. "Não saio dessa praia porque a fiz um lugar enorme, em que atuo, escrevo, dirijo. É nela que eu faço os meus túneis. Nela que construo e destruo os meus castelos de areia. Minha vida nesses 40 anos? Foi basicamente e absolutamente o teatro."

Marcos Caruso está sentado no foyer do Teatro Guaíra. Veio para a capital paranaense apresentar Em Nome do Jogo, espetáculo selecionado para a mostra oficial do Festival de Curitiba e que abre temporada quinta-feira, em São Paulo.

Escrito em 1970, o texto de Anthony Shaffer é uma peça policial que estreou em Londres. Dois anos depois, chegou à Broadway e aos cinemas, dando origem ao filme estrelado por Laurence Olivier e Michael Caine. No Brasil, o título (Sleuth, no original) também já embasou montagens renomadas: Antunes Filho dirigiu uma versão com Ney Latorraca, em São Paulo. No Rio, o público acompanhava Paulo Gracindo e Gracindo Jr. nos papéis principais.

Teatro de palavras. Com a estrutura intrincada própria dos romances policiais, a obra retrata o perigoso jogo estabelecido entre o reconhecido escritor Andrew Wyke (Marcos Caruso), e o amante de sua mulher, Milo Tindolini (Erom Cordeiro). A proposta que Milo recebe é estranha: deve roubar as joias de seu antagonista para que ele receba o seguro. Como prêmio, leva a mulher de Andrew, Marguerite, e uma quantidade de dinheiro mais do que suficiente para bancar seus luxos e extravagâncias. "Milo vem para resolver a sua situação e acaba envolvido nesse jogo. É humilhado. Mas, depois, volta para dar o troco, duelar com as mesmas armas do outro", comenta Erom Cordeiro sobre o seu personagem.

Para livrar-se dos anglicismos e de todas as referências que pudessem soar desnecessárias, Caruso assina, ao lado do diretor Gustavo Paso, uma adaptação do texto. "Mas nunca poderia imaginar que uma história como essa faria sucesso hoje", comenta o ator. "Primeiro, porque não temos a tradição do teatro policial no Brasil. Depois, porque vivemos em uma época de imagens. Hoje, o que se vê é sempre mais importante do que o que é dito."

Na contramão, Em Nome do Jogo é uma criação, sobretudo, de palavras, em que cabe ao espectador acompanhar os golpes de uma ferina batalha verbal. "Ficava tão intrigado com o interesse das pessoas que ia, depois da peça, investigar. Saía correndo e entrava naquelas vans, cheias de senhoras. Pedia licença e perguntava por que elas tinham gostado. 'Nessa idade, nós precisamos raciocinar', uma delas me disse. Engraçado como ainda me surpreendo depois de todos esses anos. É algo que nunca tinha feito antes. Já fiz o teatro do riso, do drama, da reflexão. Mas nunca esse teatro do raciocínio", diz o intérprete.

Caruso tornou-se notório por sua habilidade com papéis e tramas cômicas. Começou no engajado Teatro Popular União e Olho Vivo, em 1973. "Mas aí as pessoas começaram a desaparecer, ser presas. Tinha minhas convicções, mas não queria ser preso. Não tenho vergonha de dizer. O que eu queria era ser ator e o único jeito de fazer isso naquela época era com a comédia. Foi a salvação, o jeito de arrumar o pão de cada dia", argumenta.

Não só os atores foram para cadeia. Naqueles anos, o impacto da ditadura militar sobre o teatro brasileiro foi devastador. Perseguidos pela censura, os dramaturgos ou encontraram refúgio na televisão ou se calaram.

Ao primeiro sinal de abertura, Caruso achou que era hora de escrever. "E não foi o artista Marcos Caruso que escreveu, não. Foi o cidadão Marcos Vianna Caruso que achava que precisava fazer alguma coisa." Em 1985, estreava, em parceria com Jandira Martini, Sua Excelência, o Candidato. Era a primeira vez, em muito tempo, que se falava abertamente de política no palco. Também se inaugurava ali um gênero que alcançaria força no teatro brasileiro até os anos 2000. E teria outros representantes de peso, como Juca de Oliveira.

Porca Miséria, Operação Abafa, Jogo de Cintura: por todos esses títulos Caruso alcançou reconhecimento como autor. Nenhum deles, porém, teve a repercussão ou a lucratividade de Trair e Coçar, É Só Começar. "Matematicamente programada para fazer o público rir de 30 em 30 segundos", a peça segue em cartaz há 27 anos. Caso único na história do teatro nacional. E difícil de conceber em uma época em que as temporadas se tornam cada vez mais curtas.

Com Em Nome do Jogo, Caruso ficou mais de um ano apresentando-se no Rio. A montagem estreou três dias antes de Avenida Brasil. "E foi um privilégio viver dois personagens diametralmente opostos ao mesmo tempo. Leleco era solar. Andrew é lunar."

A figura do boêmio do subúrbio carioca, conquistador e falastrão, rendeu a Caruso seu maior sucesso televisivo. Ele não maldiz a transformação em celebridade. "Não digo que é ruim fazer sucesso, sabe?" Mas se ressente por seus efeitos. "Não posso mais olhar para as pessoas na rua porque elas me reconhecem. Antes, algumas me reconheciam. Hoje, é todo mundo. E isso mata uma ferramenta essencial do meu trabalho: minha capacidade de observação." Que seja, pois, efêmera a onda da fama. E longa a sua vida na praia.

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