Cartões de visita

A biografia mais breve do mundo é um cartão de visita. Às vezes, nesse diminuto retângulo de papel, reconhecemos o nome de um amigo que sumiu. Ou de um gatuno que nos deu um golpe e anda escondido por aí...

Milton Hatounm, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2010 | 00h00

Encontrei o cartão de Gwen P.W. quando eu fazia uma limpeza geral no baú do passado. Eu a conheci em 1994 no câmpus de Berkeley, onde fomos colegas de departamento. Não sei onde está Gwen, talvez em alguma universidade na costa Leste dos Estados Unidos, pois naquele ano ela me disse que queria mudar de ares e morar na outra extremidade de seu país.

Lembro que era simpática e tinha um riso solto; conhecia muita coisa sobre literatura colonial da América hispânica, falava um pouco de quéchua e gostava de conversar sobre Sam Cooke, autor da música A Change Is Gonna Come, inspirada por Blowin" in the Wind, de Bob Dylan. Quando li o ótimo livro Like a Rolling Stone, de Greil Marcus (Companhia das Letras), me lembrei de um encontro com Gwen.

"Ah, quando penso em Berkeley nos anos 60... ", disse minha amiga, numa tarde em que ela saiu do câmpus para fumar. Gwen me perguntou como era o Brasil na década de 60. Eu disse que era melhor nem pensar nisso.

"Reagan e Thatcher enterraram muitas das nossas conquistas", disse Gwen, enquanto fumava. "Agora o politicamente correto chegou para valer. É mais uma variante do puritanismo americano."

Em 1994, quando morei em Berkeley, já era proibido encarar uma aluna por mais de cinco segundos; eu lecionava com os olhos no teto ou na parede do fundo da sala: o olhar fixo em algum ponto em que eu imaginava uma aranha tecendo sua teia. Num átimo de devaneio, podia admirar o céu maravilhoso da Califórnia. Mas nada de olhar com insistência para alguém, isso nem pensar. No começo do semestre letivo caí na besteira de fechar a porta do meu escritório quando atendia os alunos. Fui advertido pelo chefe do departamento: a porta devia ficar aberta, para que todos vissem que eu e a aluna (ou aluno) estávamos conversando sobre questões da matéria ensinada ou sobre a avaliação. Quando contei esse episódio para Gwen, ela me disse: se o chefe não tivesse agido assim, ele seria delatado por algum aluno ou professor. Depois seria advertido.

Nunca mais vi Gwen, rasguei o velho cartão da UC Berkeley e dezenas de cartões de pessoas que não recordava o nome nem o rosto. Fiz uma pausa para observar um cartão tosco e amarelado, em que estava escrito: "Adamastor ? o marceneiro pontual".

Em janeiro de 1992, ele me prometeu entregar uma estante no prazo de 3 semanas ou 22 dias. Lembro disso porque Adamastor era obcecado por prazos de entrega, o que lhe dava notoriedade entre os seus pares. Esperei 22 dias, esperei 2 meses, e nada. Telefonei para o marceneiro pontual, ninguém atendeu. Um vizinho de Adamastor me disse que ele tinha vendido sua marcenaria. Outro vizinho acrescentou: fugiu para Belém com a namorada de um empregado. E com a minha grana, pensei, insultando esse don-juan marceneiro. Depois soube que ele tinha dado trambique em vários clientes, que até hoje sonham com mesas, estantes e guarda-roupas. Estará em Belém com sua amada?

Voltei à pilha de cartões, rasguei outras dezenas, nomes e profissões passavam pelos meus olhos como caravanas anônimas no deserto da vida. Quem terá sido Celeste P.? Rosário L.? Chiang Hu...? Nomes de escritores que encontrei em congressos, colóquios, simpósios, feiras de livros... Esqueci o rosto de todos os participantes, procuro nomes de amigos e só encontro desconhecidos, nomes de espectros, fantasmas que vi ou pensei ter visto em viagens tediosas, inúteis. Melhor viajar sem sair do seu lugar.

Sophie Le Goff. Nenhum parentesco com Jacques, o historiador. De Sophie eu recordo bem: uma estudiosa da obra de Quevedo, falava espanhol com sotaque de Castilla, pronunciando "las eses y las zetas" como se fossem zumbidos de uma varejeira encurralada. Só de brincadeira, eu pedia a minha amiga que pronunciasse "zarzarrosa", uma palavra que saía da boca de Sophie como um assobio da selva obscura. Ao contrário de Gwen, Sophie era séria, o rosto quase sempre tenso. Traduzíamos a quatro mãos. Quer dizer: quatro olhos no mesmo texto chatíssimo e duas mãos em cada máquina Smith Corona. Não se incomodou nem sorriu quando lhe dei um apelido carinhoso: Sophie Le Gouffre.

Tampouco tive notícias dessa amiga. Traduzíamos juntos ? mas separados ? no outono e inverno de uma Europa que vivia seu delicado crepúsculo. Quem sabe se o destino dessa sábia Sophie não era mesmo o abismo? Mas isso faz três décadas...

Como o tempo passa... E quantos cartões são jogados impiedosamente no lixo! Sobram poucos. Tomei um susto quando li, num dos últimos, o meu nome e endereço. O nome continua o mesmo, mas agora é um nome sem profissão, com outro endereço. Eu mesmo não sei se ainda sou aquele sujeito de 1997, que vivia sozinho com um gato melancólico, bebia vinho barato e lia todas as noites o poema Gazal em louvor de Hafiz.

Talvez para isso sirva uma faxina: reencontrar um poema que diz muito sobre o nosso passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.