Cartier-Bresson por inteiro

Nova York exibe uma das maiores mostras do fotógrafo, com dezenas de obras pouco conhecidas

Tonica Chagas, especial para o Estado, de Nova York, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2010 | 00h00

Shangai, China 1948 - 1949. Antes do domínio da televisão, a maioria das pessoas via o mundo pelas imagens das revistas e, assim, os ensaios de Bresson eram furos mundiais de reportagem

 

 

Pai do fotojornalismo e um dos criadores da fotografia moderna, Henry Cartier-Bresson (1908-2004) empunhou a câmera até já ter passado dos 80 anos de idade e, durante seis décadas, cruzou quase todos os quatro cantos do mundo. A ampla abrangência geográfica e histórica do trabalho dele compõe uma narrativa em imagens de mais da metade do século 20.

Em lugares tão distintos como Nikko ou Cairo, Hyères ou Pequim, Bresson perpetuou flagrantes do século moderno em momentos e movimentos marcantes como a morte de Gandhi ou passageiros como o êxtase de um menino olhando a bola que jogou para o alto.

A essência dessa narrativa forma uma das maiores retrospectivas dele, Henri Cartier-Bresson: The Modern Century, que o Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York, exibe só mais uma semana, até o dia 28. São 300 fotos feitas entre 1929 e 1989, a maior parte cedida pela Fundação Cartier-Bresson, de Paris. Entre elas há pelo menos umas 70 que até agora eram bem pouco conhecidas.

Bresson começou a viajar pelo mundo com 22 anos, quando deixou os estudos de pintura e foi viver como caçador na Costa do Marfim, que ainda era uma colônia do seu país, a França. Quando voltou para casa e descobriu o que podia fazer com uma Leica portátil, saiu pelos países vizinhos e depois seguiu para o México, capturando imagens que ficariam entre as melhores de qualquer tempo.

Liberdade. A Magnum, agência cooperativa que ele e os amigos Robert Capa, George Rodger e David "Chim" Seymour criaram depois do fim da 2.ª Guerra (durante a qual ele passou três anos prisioneiro dos nazistas), deu-lhe meios e liberdade para cobrir o que quisesse e onde quisesse. À entrada das 13 galerias que abrigam a exposição no MoMA, há sete mapas traçando os lugares por onde ele passou - quase toda a Europa, Índia, Japão, China, Oriente Médio, África, a antiga União Soviética e a América do Norte - com o registro das datas e de quantas vezes esteve em cada um.

Organizada por Peter Galassi, chefe do Departamento de Fotografia do MoMA, a exposição é dividida em temas e destaca alguns períodos ou trabalhos especiais na carreira de Bresson. As duas primeiras seções resumem o começo da carreira dele na década de 1930 e introduzem seu trabalho inicial como fotojornalista.

O jovem que se identificava com as ideias surrealistas começou a usar a maleabilidade e rapidez da Leica como um pintor e seu caderno de esboços, representando com traços simples o máximo do que pudesse exprimir - como na mais do que famosa imagem, de 1932, que mostra o homem saltando uma poça d"água atrás da estação de trens Saint-Lazare, em Paris.

Depois da guerra, a magia surrealista deu lugar a um novo estilo dele, quase sempre com o enquadramento de um pequeno grupo de pessoas em cenas que contam toda uma história com clareza absoluta. Para ter-se a dimensão da vergonha e do ódio que restaram da guerra, não é preciso muito mais do que uma frase - "mulher que foi informante da Gestapo é denunciada" - para identificar uma foto tirada em abril de 1945 num acampamento de pessoas deslocadas pela guerra, em Dessau, na Alemanha.

Antes do domínio da televisão, a maioria das pessoas via o mundo pelas imagens de revistas e alguns ensaios fotográficos de Bresson foram furos mundiais de reportagem. Em 1958, ele passou quatro meses na China acompanhando o programa de industrialização forçada planejado por Mao. Mesmo monitorado pelas autoridades, saiu de lá com um fantástico corpo de trabalho. A Life abriu dez páginas em cor (modalidade que o próprio Bresson não gostava, não se dava bem e acabou excluindo do que considerava o trabalho da sua vida) e deu menor atenção às fotos em preto e branco. Fora um livreto publicado em 1964, a retrospectiva no MoMA é a primeira apresentação dessas imagens com o valor que Bresson lhes deu ao registrá-las.

Retratos. Nas suas voltas pelo mundo, o fotógrafo que acompanhou "o grande salto adiante" da revolução comunista na China e foi o primeiro profissional do Ocidente a entrar na União Soviética depois da morte de Stálin, ainda achou tempo para ser um dos grandes retratistas do século 20. Bresson fez perto de mil retratos de pessoas notáveis, a maioria artistas e escritores. Preferia fotografá-las em suas casas e quando lhe perguntavam quanto tempo ele ia demorar para fazer o trabalho, brincava: "Mais do que um dentista e menos do que um psicanalista." É de se imaginar quem desses dois estava com a mão no disparador ao fotografar Bonnard num cantinho de seu estúdio, Colette e Pauline, sua companheira, em vestidos de bolinhas, Chanel fumando sob uma máscara veneziana, Carl Jung fumando cachimbo, Sartre numa ponte em meio à névoa, Matisse cercado por gaiolas e pombas, ou Truman Capote meio escondido por folhagens.

Como um dos museus que mais utiliza a internet para alcançar o maior público possível, o MoMA produziu um website interativo (www.MoMA.org/cartierbresson) que permite aos visitantes ver todas as imagens exibidas na retrospectiva. Henri Cartier-Bresson: The Modern Century também resultou em um livro publicado pelo museu e distribuído fora dos Estados Unidos pela editora Thames & Hudson.

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