Cartas unem Cabral, Bandeira e Drummond

O poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) tinha 20 anos quando tomou coragem e mandou uma carta a Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), pedindo ajuda para divulgar o manifesto do Congresso de Poesia do Recife. Cabral havia recebido, em fevereiro do mesmo ano, 1940, um elogio breve de Drummond - "seus belos poemas", escreveu o mineiro, "acusam no autor uma tão aguda capacidade de captar as vibrações do nosso tempo e de interpretá-las liricamente" - e estava preocupado com algumas entrevistas publicadas na revista Vamos Ler!, com os poetas pernambucanos Austro Costa, Israel Fonseca e Esdras Farias, em que o congresso era criticado. Mas também o incomodava "um outro movimento" que começava a se esboçar, "chefiado pelo eminente sociólogo Gilberto Freire - ditador intelectual desta boa província -, obedecendo ao slogan de que "os tempos não estão para poesias".A carta marca o início de uma relação espistolar com um dos poetas que marcariam a obra de João Cabral. Outro amigo com quem o autor de Cão sem Plumas e Morte e Vida Severina se corresponderia intensamente seria Manuel Bandeira (1886-1968) seu primo em quinto grau, cuja obra poética também exerceria uma grande influência em sua produção.As trocas de cartas de João Cabral com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, os três grandes nomes da poesia brasileira no século 20, chegam às livrarias em 5 de março, em edição da Nova Fronteira. Organizado pela crítica literária Flora Süssekind, o volume Correspondência de Cabral com Bandeira e Drummond (320 págs., preço a definir) reúne um total de 104 documentos - anotados por Flora, o que facilita o entendimento do contexto histórico das cartas e das discussões travadas pelos poetas.Pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa mantém os acervos de Drummond e Bandeira e, portanto, as cartas enviadas por Cabral a eles, Flora não acredita que a correspondência marque propriamente a obra de nenhum dos três poetas. "A correspondência registra uma amizade intelectual e aponta para a importância de Drummond e Bandeira, como interlocutores, para Cabral." Além disso, revela preferências e atividades dos três poetas nas décadas de 1940 e 1950. As trocas de cartas e bilhetes entre João Cabral e Drummond se concentram no período que vai de 1940 a 1946, sobretudo quando Drummond trabalha como chefe de gabinete de Gustavo Capanema e João Cabral trabalha no Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público). As cartas com Bandeira foram trocadas sobretudo entre 1947 e 1958, depois que Cabral assume o posto de vice-cônsul brasileiro em Barcelona. Parte dessa correspondência já era conhecida - Bandeira publicou 12 das cartas que enviou a João Cabral em 1958.

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2001 | 15h51

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.