Cartas significam avanço nos estudos

Flora Süssekind conta como decidiu pela edição das cartas: "no início, o meu interesse era tomar o epistolário como fonte para o estudo do processo de formação de uma dicção poética própria por parte de Cabral; mas achei que o material mereceria uma edição independente",diz. Para ela, a correspondência entre os três poetas é significativa para o estudo da história da poesia moderna no Brasil. "Do ponto de vista de Cabral, para o estudo do seu período de autoconscientização como poeta, de suas relações com a literatura espanhola e a poesia catalã e para a visualização da leitura de Drummond e Bandeira; no caso de Bandeira, é muito interessante rastrear as informações contidas nas cartas sobre os seus trabalhos - sobre Mafuá do Malungo, sobre a decisão de escrever o Itinerário de Pasárgada, sobre a polêmica em torno do poema Boi Morto afirma ela. "Também se verifica que Drummond era um leitor - ao contrário do que se afirma - de crítica de poesia."O primeiro documento publicado no livro é uma felicitação de Bandeira pela publicação de Pedra do Sono, em 1942. Mas é em setembro de 1947 que se inicia um dos mais interessantes tópicos da correspondência entre os dois. Cabral informa que acabou de concluir a negociação para a compra de uma impressora para a publicação de pequenas edições de luxo. Pergunta se Bandeira lhe cederia poemas para a publicação de cem exemplares - começa então a nascer a primeira edição de Mafuá do Malungo - Jogos Onomásticos e outros Versos de Circunstância, reunião de poemas de Bandeira impressos por João Cabral - e a ele dedicada. O poeta-cônsul também foi, provavelmente, uma das primeiras pessoas, senão a primeira, a ler o poema O Bicho. Em janeiro de 1948, Bandeira lhe escreve, contando que uma nova edição de suas Poesias Completas acabara de sair. "Ficou bonitinha. Mas já não está completa, pois fiz já mais três poeminhas. Ei-los." Entre eles, está o poema que trata de um bicho que cata comida entre os detritos na imundície do pátio: "O bicho não era um cão,/ não era um gato,/ não era um rato./ O bicho, meu Deus, era um homem."Cabral, entre uma questão tipográfica e outra, responde: "Achei-os excelentes, principalmente O Bicho. Não sei quantos poetas no mundo são capazes de tirar poesia de um "fato" como você faz (...). Você já deve ter notado que meu ideal é muito mais este M. Bandeira do que aquele. Mas diante de poemas como O Bicho, fico satisfeito por verificar que nenhum excesso intelectualista me é capaz de tirar a sensibilidade para poemas dessa família."

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2001 | 15h44

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