Cartas revelam intimidade de J.D. Salinger

Escritas na juventude, elas mostram muito da personalidade do recluso autor; destinatária guardou o material por 70 anos

DAVE ITZKOFF , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2013 | 02h37

No dia de 18 de novembro de 1941, um escritor de Manhattan, lutando para publicar seus primeiros textos, pede a uma jovem de Toronto que procure, na nova edição da New Yorker, um texto seu. "É um conto", ele diz, "sobre uma criança durante as férias de Natal", e a recepção a ele foi tão boa que o editor encomendou uma série de histórias sobre o personagem. Mas o jovem está em dúvida. "Vou tentar mais uma ou duas", ele escreve. "E se começar a perder minha marca, desisto." A carta se encerra com um pedido: ele quer saber a reação dela à "primeira das histórias de Holden". E assina: "Jerry S".

O escritor era J.D. Salinger, então com 22 anos, antes de escrever obras como O Apanhador no Campo de Centeio, ou seja, antes do sucesso. Quando morreu em reclusão, em 2010, aos 91 anos, ele permanecia um mistério para seus milhões de leitores, tendo compartilhado muito pouco a seu respeito com o mundo. Mas o autor ganha um retrato vívido nessas cartas escritas entre 1941 e 1943, a que poucas pessoas tiveram acesso nos últimos 70 anos. Na correspondência, comprada pela Morgan Library & Museum, o inquieto Salinger se revela tão brincalhão, apaixonado e cáustico como Holden Caulfield, o adolescente que se tornaria a sua principal criação.

"Ele está no limiar de sua carreira, mas já é a voz dele que encontramos", diz Declan Kiely, curador da Morgan. "Esta é uma porta de entrada privilegiada para seus primeiros anos como escritor." A senhorita Marjorie Sheard, jovem de Toronto com quem as cartas foram trocadas, está hoje com 95 anos.

O jovem Salinger também já mostra a atitude para enigmas e a criação de mitos e informações equivocadas a seu respeito. "Era a época perfeita para bravatas", diz Kenneth Slawenski, biógrafo do escritor. "Era, de certa forma, tudo o que ele tinha a oferecer naquela época."

Também aspirante a escritora, Marjorie Sheard, após ler alguns de seus textos em revistas, pediu a Salinger conselhos sobre o ato da escrita. A certa altura, ele pergunta como ela é. Na carta seguinte, pede desculpas pela indiscrição. Mas ela logo envia uma foto, à qual ele reage com a seguinte resposta: "Menina danada. Você é bonita".

Durante todos esses anos, a correspondência ficou guardada com Sheard em uma caixa de sapatos. Ela eventualmente abandonou as ambições literárias, casou-se e viveu como dona de casa. Há cinco anos, mudou-se para uma clínica de idosos e deixou as cartas com alguns parentes. Quando os custos de seu tratamento ficaram altos demais, ela e a família decidiram vender as cartas para a Morgan Library, que já abriga a correspondência do escritor. O museu se recusou a informar o valor pago pelo material.

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