Luigi Bricoli/Divulgação
Luigi Bricoli/Divulgação

Cartas para 100 anos de solidão

A Idade da Ameixa traz mulheres que fantasiam a vida em algum lugar da AL

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

A delicadeza do espetáculo A Idade da Ameixa indica que, em conveniente movimento pendular, o teatro pode ser menos corrosivo e afobado por urgências agressivas. Alguém, evitando a pieguice, conseguiu abrir uma caixinha de música e reencontrar camafeus da memória. Sem abrir mão de um subtexto amargo, o argentino Aristides Vargas faz um inventario familiar de mulheres ao longo de três gerações. Há um eco de frustração em cada uma, mas, igualmente, o senso de continuidade e aceitação a tentação é mencionar Chekhov, mas fiquemos nas veias abertas da América Latina. A peça, traduzida com senso de oralidade pelo dramaturgo Mario Viana, tem lampejos de Conjecturas sobre la Memória de Mi Tribu, relato biográfico do chileno José Donoso (1924 -1996), ou de En el País del Silencio, do boliviano Jesús Urzagasti, ambos ainda ignorados pelas editoras brasileiras. Esse mundo de aflições femininas em torno da beleza que se vai com a juventude, de amores só desejados, casamentos, adultérios e mortes são desfiados por duas irmãs que se desdobram em mães e tias.

Embora seja um escritor engajado politicamente, Vargas aqui não faz referências explícitas a fatos históricos, como Vargas Llosa na peça A Senhorita de Tácna, em que paixão e preconceito de classe estão evidenciados. A Idade da Ameixa instaura um clima ora sonhador, ora delirante, transmitindo a sensação dos anos que passam, amadurecem e secam, são saboreados na hora exata, viram bom licor; ou o seu contrário, acaba em bebida avinagrada. Nas sagas de nuestra America, os homens estão lá fora se matando em guerras, revoluções, buscando riquezas sangrentas, enquanto as mulheres tecem, criam filhos, sonham aventuras e definham. Nesse lusco-fusco emocional, o diretor Luiz Valcazaras foi buscar suas lembranças, ou, como diz: "Sempre me encantou a ideia de parar o tempo. Lembro da minha mãe sentada numa cadeira em frente de casa enquanto a noite descia sobre ela como uma manta feita de mormaço. Ali eu ouvia as histórias que meus avós contavam: histórias de cavalos, de ciganos. Ou simplesmente histórias de chuva e vento".

Alguém poderá imaginar uma estética passadista, uma arte com relógio de bolso. Será engano. Luiz Valcazaras nasceu em 1969 e ostenta um sobrenome enraizado em outras culturas e viagens; e mais: nasceu e se criou em Itapeva, São Paulo. Quando o teatro parece ser, só e excessivamente, o retrato da metrópole e seus desgarrados, é pertinente que se recorde à província, aliás, tão chekhoviana. O espetáculo tem uma afetuosidade compreensiva - até na crueldade ocasional - construída por interpretações sutis, iluminação e figurinos diáfanos. Valcazaras realiza, assim, a sua vontade de "comungar mais silêncios noturnos com amigos imaginários, voltar a fazer teatro no quintal". O encenador vai de encontro de Aristides Vargas, interiorano de Córdoba que estudou na Universidade de Cuyo, Mendonza (a mesma onde Cortázar lecionou até, em confronto com o governo Perón, se demitir para o definitivo autoexílio na França). Como artista do teatro, Vargas trabalhou em lugares que caprichamos em ignorar (Nicarágua, Costa Rica e Equador, onde atualmente dirige o sólido grupo teatral Malayerba).

Os desempenhos brilhantes de Nathalia Lorda e Gabriela Elias formam uma espécie de rendado verbal. Jogo de entonações que sinaliza, quase imperceptivelmente, mudanças de época, personagens e idades. À maestria de falas, acrescentam gestos indicativos de outras alterações no enredo. Há suavidade e repentinas explosões de vontade e temperamentos nesse território da imaginação. Um palavrão dito duas vezes é o único ruído incômodo na conversação. Ao final, quando as luzes do palco caem lentamente, paira no ar entre palco e plateia as palavras do autor: "Como eu gostaria de parar o tempo! Como naquele dia em que tínhamos 10 anos e queríamos salvar as mulheres daquela casa dos rigores do abandono e da idade". O encanto maior fica por conta de um detalhe simples até. Tudo o que se viu são apenas cartas trocadas, e nessa correspondência cabe toda uma humanidade.

A IDADE DA AMEIXA

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, telefone 3234-3000. e 6ª, às 21 h. R$ 2,50 a R$ 10. Até 2/9

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