"Cartas" e "Diário" de Rilke são reeditados

A solidão acompanhou a vida dopoeta alemão Rainer Maria Rilke como um combustívelindispensável. Apesar de todo o sofrimento - filho único, foieducado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como umamenina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes,onde se sentia terrivelmente só em meio a 500 garotos -, ele searmou de energia suficiente para enfrentar os desafios à suaidentidade e criou uma obra que inspirou as gerações seguintes.E a forma como transformou o isolamento em impulso para otrabalho está revelada em dois livros, Cartas a um JovemPoeta (112 páginas, R$ 14), que a editora Globo estárelançando, e Diário de Florença (144 páginas, R$ 24),inédito em português que a Nova Alexandria promete para estemês.Escritas entre 1903 e 1908 com a intenção de revelar aum jovem poeta, Franz Xaver Kappus, o intrincado mundo interiordo escritor, as Cartas a um Jovem Poeta apontam a solidãocomo a condição única e verdadeira para a criação de uma obraautêntica. E, no Diário de Florença, Rilke encadeia umconjunto de pensamentos e reflexões sobre a arte, a partir deuma viagem à cidade italiana. Nos dois casos, sobressai a forçade sua linguagem que busca a expressividade das palavras que,embora herméticas em alguns casos, surgem sugestivas por seremmais capazes de provocar emoção que esclarecê-las.René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke nasceu em1875, em Praga, quando a Boêmia integrava o impérioaustro-húngaro. Já adulto, trocou o primeiro nome para Rainer esempre cultivou um apego às tradições de nobreza, reforçado peladisposição em morar em castelos e torres medievais. O pai era ummilitar fracassado e a mãe, de família rica, canalizou no filhoúnico suas ambições.Apesar da pressão dos pais, Rilke conseguiu garantir aidentidade de seu talento. Segundo o professor Erwin Theodor, opoeta soube aproveitar positivamente as ameaças em sua obra"graças à capacidade de perceber e expressar mesmo os matizesmais recônditos ou evanescentes de cor e tom das coisas, bemcomo a fluidez quase imperceptível de sensações ou disposiçõesde ânimo".Rilke era um homem cosmopolita e adaptava-se facilmenteàs mudanças. Assim, além de viajar muito, viveu na França,Alemanha e Suíça, onde, além de outras obras destacadas,terminou as Elegias de Duíno (que a Globo já lançou) eescreveu os Sonetos a Orfeu. Em 1897, depois de terpublicado textos menores, o poeta foi apresentado a LouAndreas-Salomé, amiga e discípula de Nietzsche, por quem seapaixonou, provocando-lhe uma mudança radical na vida.Diário - Incentivado por Lou, Rilke iniciou a preparaçãode uma viagem a Florença, onde pretendia estudar a línguaitaliana e assistir a cursos sobre história da arte. O poetachega à cidade italiana em 15 de abril de 1898, data em queinicia a redação do "Diário de Florença", que vai se estenderaté 6 de julho do mesmo ano.Pelo texto, é possível notar que não setrata de um diário na acepção rigorosa da palavra, ou seja, umrelato minucioso e cronológico dos fatos. Segundo MarionFleischer, professora de língua e literatura alemã daUniversidade de São Paulo e responsável pela introdução do livro, Rilke faz "um relato de viagem envolvente, muitas vezesinterrompido, que se desenvolve ao sabor das experiênciasmarcantes, pontilhado de reflexões profusas sobre a arte -particularmente sobre a arte do Renascimento - e de ternaspalavras dirigidas a Lou Andreas-Salomé, a quem dedica o livro,e com quem deseja partilhar suas emoções, alegrias, descobertase pensamentos".O poeta visitou e admirou incontáveis igrejas, estátuase pinturas, não escondendo o fascínio pelas obras de mestrescomo Botticelli e Michelangelo, entre outros. Marion observa quesão instigantes as análises que Rilke faz sobre artistasproeminentes, que refletem suas concepções a respeito da arte."A substância e o sentimento inerentes a essas convicçõesrefletem-se em algumas passagens", observa a estudiosa, quedestaca o seguinte trecho do diário: "O sentimentalismopressupõe a fraqueza, o amor pelo sofrimento. Mas creio queninguém deixa transparecer tão nitidamente a luta contra osofrimento como Botticelli. E esse sofrimento não é uma tristezapassiva, imotivada (...), e sim o sentimento ocasionado por estaprimavera estéril que se exaure em seus próprios tesouros."Em seguida, Rilke faz uma comparação com outro mestre:"Nesse contexto, seria talvez mais admissível qualificarMichelangelo como sentimental, se quiséssemos considerar apenasas formas que imprimiu às suas obras. Em seus trabalhos, a idéiaé sempre grande e serena na sua concepção plástica; emcontrapartida, porém, a linha apresenta-se agitada e turbulentaaté mesmo em suas figuras mais tranqüilas. É como se alguémfalasse a surdos e cabeçudos."Depois de Florença, Rilke planejou uma viagem à Rússia.Assim, entre 1902 e 1912, visita diversos países e participa deinúmeras conferências. Durante a 1.ª Guerra Mundial, na qualmanteve uma prudente posição antibeligerante, fixou-se na Suíçaalemã, onde desenvolveu um estilo de vida do artista puro, ouseja, livre de preocupações familiares e concentrado notrabalho. Morreu em 1926, de leucemia, e deixou uma poesiaseminal, da qual as palavras brotam como se fossem os própriosseres da natureza.

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