Cartas de Pessoa e Sá-Carneiro são publicadas

A formação do modernismo português teve como base duas figuras centrais: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A maior parte das discussões entre os dois escritores deu-se por meio de cartas, com Sá-Carneiro em Paris e Fernando Pessoa em Lisboa. É essa correspondência que se torna possível conhecer no livro Cartas de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, que sai esta semana pela editora portuguesa Assírio & Alvim. No total, são 217 cartas e postais, que mostram a visão de Sá-Carneiro a respeito das questões poéticas do modernismo português. "São documentos fundamentais para a história do modernismo português, da fundação do grupo da revista Orpheu. Parece que Sá-Carneiro é o eco de todas as idéias de Fernando Pessoa e outras vezes o contrário", conta Manuela Parreira da Silva, organizadora da edição. Ler as cartas de Sá-Carneiro é como se víssemos só um lado do diálogo: Fernando Pessoa guardou praticamente todas as cartas, cartões e notas de Sá-Carneiro e não se conhece nenhuma das respostas das cartas. Para Manuela, as cartas conseguem mostrar a opinião de Pessoa. "Há nas cartas de Sá-Carneiro um eco das cartas de Pessoa. Ele muitas vezes repete trechos das cartas de Pessoa." O conjunto de cartas é o mais completo existente no espólio de Fernando Pessoa. "No espólio existem perto de mil cartas, das quais 217 de Sá-Carneiro. De Almada Negreiros ele só guardou um postal, mas isso se justifica porque Almada vivia em Lisboa. No entanto, não existem cartas do Armando Corte Rodrigues (que fez parte do grupo do Orfeu) e ele vivia nos Açores. É natural que eles se correspondessem", avalia Manuela. Das cartas de que se tem notícia, só falta uma, a que Sá-Carneiro deixou a Pessoa quando se suicidou. "Ou Pessoa não guardou essa carta com as outras, por ser a última, a mais dramática, ou ficou em poder da família e não foi parar no espólio", diz Manuela. As cartas foram o principal elo de amizade entre os dois. Sá-Carneiro viajou para Paris em 1912, pouco depois de conhecer Fernando Pessoa. Apesar de se conhecerem havia pouco tempo, já na sexta carta ele fala de suicídio, que viria a cometer em 1916: "Em suma, não creio em mim, nem no meu curso, nem no meu futuro. Já tomei várias decisões desde que aqui estou e um dia senti, na verdade senti cheio de orgulho, que me chegara finalmente a força necessária para desaparecer." O estado de espírito de Sá-Carneiro variava entre a depressão e a euforia, como revela, por exemplo, na carta de 20 de junho de 1914: "E eu já me considero tão grande, já olho em desprezo tanta coisa à minha volta." Os sinais sobre o suicídio são contraditórios. Em maio de 1913, ele escreveu a Pessoa: "É que eu, no fundo, amo a vida." Numa carta de janeiro de 1913, Sá-Carneiro antecipa propostas que os surrealistas apresentariam anos mais tarde: "Quando sonhamos, escapam-nos pormenores; os acontecimentos que se desenrolam nos sonhos por vezes não têm ligação, sucedem-se invertidos, não estão certos em suma. Faça um esforço para me compreender: surgem-nos como uma soma de parcelas de espécie diferente. Pois o que é preciso é que esta narrativa dê ao leitor a mesma sensação." Para os estudiosos de Pessoa e Sá-Carneiro, o mais importante na correspondência é acompanhar como os dois poetas e escritores criavam as suas obras. Desde o início, Sá-Carneiro enviava trechos de contos para Pessoa ler e dar sua opinião, o mesmo ocorrendo com os poemas de Pessoa. Um sugere ao outro trocar palavras, modificar trechos e até abandonar projetos. Entre os dados a respeito de Pessoa, torna-se possível saber com maior exatidão a data do surgimento do heterônimo Ricardo Reis: "As minhas sinceras felicitações pelo nascimento do Exmo. Sr. Ricardo Reis, por quem fico ansioso de conhecer as obras que segundo me conta na carta são tão novas, tão interessantes e originais - e sobretudo grandes porque são muito simplesmente do Fernando Pessoa", escreve em 23 de junho de 1914. Uma parte dos problemas enfrentados por Sá-Carneiro está ligada a dificuldades financeiras. É por falta de recursos que em setembro de 1915 anuncia a Pessoa que não poderá continuar bancando o terceiro número da revista Orpheu. Em março de 1916, pede que Pessoa procure sua antiga ama, em Lisboa, para que esta empenhe um cordão de ouro e envie o dinheiro para Paris. "Provavelmente, a falta de dinheiro foi a gota d´água para o suicídio", diz Manuela. O volume que sai agora não é a primeira edição das cartas. "As cartas saíram pela Ática, em 1959, mas não publicaram os postais. Depois, foram publicados só os postais, em Portugal", conta Manuela. Sobre a edição anterior, ela diz que há muitas diferenças na fixação do texto: "Algumas frases não estão completas, há cartas mal articuladas, misturadas com trechos de outras cartas. Tentei aproximar o texto da veracidade do original. Mas o que exigiu mais trabalho foram as notas, com a identificação dos nomes das figuras, para dar o enquadramento das cartas. A edição da Ática tinha muito poucas notas."

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