Cartas beats na estrada

Correspondência entre Jack Kerouac e Allen Ginsberg revela universo dos poetas

Janet Maslin, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2010 | 00h00

Muitas das cartas trocadas entre os escritores Jack Kerouac e Allen Ginsberg foram parar nos arquivos de diferentes universidades. As do primeiro, na Columbia; as do segundo, na Universidade do Texas. E lá permaneceram durante décadas, não sem uma boa razão. São cartas prolixas, desconexas, visionárias e impenetráveis; mas também agudas, lúcidas, engraçadas, ternas, íntimas, tagarelas, exultantes e honestas. A energia indomada de sua comunicação inicial vai se ossificando lentamente no discurso dessas eminências demasiado atarefadas com sua fama para serem amigas. Como Kerouac previu ao amigo de ambos e mentor, Lawrence Ferlinghetti: "Algum dia "As Cartas de Allen Ginsberg a Jack Kerouac" farão a América chorar."

Na atraente coleção que intitularam Jack Kerouac e Allen Ginsberg: The Letters, os organizadores Bill Morgan e David Stanford definem um território literário bem distinto. Eles fazem isso apesar do fato de Kerouac e Ginsberg serem exuberantes autores de uma vasta correspondência, de cada um se corresponder com inúmeras pessoas e de uma grande quantidade de outras cartas que apareceram em outros lugares.

Mas a ênfase desse livro está na intensidade e na paixão das extensas conversações entre dois escritores. É incrível como eles escreviam cartas expansivas, com penetrantes análises mesmo quando estavam fisicamente muito próximos, sem falar nos longos períodos vividos na estrada. Nelas o elo da amizade está plenamente preservado, desde os excessos arrogantes da faculdade até a correspondência mais fria, arruinada por causa da fama nos últimos anos. Cada um deles era um importante crítico da obra do outro.

Em parte porque Morgan já havia explorado este filão para outros livros - como a biografia de Ginsberg, I Celebrated Myself, e os guias do turismo literário dos beats em Nova York e São Francisco - e escrito uma pesquisa condensada, mas ampla, sobre a história dos beats, intitulada The Typewriter Is Holy, este é um livro que tenta destacar a importância dos consideráveis tentáculos e do vasto legado cultural dos beats.

Morgan diz que descobriu dois tipos diferentes de pessoas interessadas nos beats: os que não sabem nada a seu respeito e os que sabem tudo. The Typewriter Is Holy agrada deliberadamente a ambos. E, com a edição das cartas, estabelece um diálogo sobre o vigor do movimento beat: se um livro mostra o que o gerou, o outro explica por que não desapareceu. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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