Cartas a um ditador

Peça examina relação entre Mikhail Bulgakóv e Josef Stalin

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

As Cartas Portuguesas, romance epistolar da freira Mariana Alcoforado, entraram para a história como exemplo máximo do amor desmedido. Mesmo abandonada, a religiosa continuava escrevendo a seu amado, o cavalheiro de Chamilly. Mesmo sem receber nenhuma resposta, permaneceu desdobrando-se em súplicas, reafirmando seu afeto.

Em Cartas de Amor para Stalin, obra do espanhol Juan Mayorga, o foco não recai propriamente sobre laços conjugais. Na peça, que merece montagem a partir de amanhã, o que se examina é a improvável relação que o escritor russo Mikhail Bulgakóv estabeleceu com Stalin. Um misto de devoção e ódio, que resultaria - tal como no caso da freira portuguesa - em obsessão.

Conduzida pelo encenador baiano Paulo Dourado, a versão brasileira é protagonizada por Ricardo Bittencourt e Bete Coelho, da cia. BR116. Em cena, ele vive o papel do artista atormentado, assombrado pela censura do regime comunista. A atriz desdobra-se em dois personagens. Surge primeiro como a mulher de Bulgakóv. E, mais adiante, encarnará também a figura do ditador.

Para construir o enredo, Mayorga partiu de um fato verídico. Perseguido pelo governo, o romancista e dramaturgo soviético não mais podia publicar seus livros. Sem perspectiva de trabalho, enclausurou-se em casa. Estava deprimido. Isso até receber, certa noite, um telefonema. Do outro lado, falava Stalin.

A ligação misteriosa poderia resolver o impasse em que vivia Bulgákov. Talvez fosse alguma boa notícia. Uma esperança. Inexplicavelmente, porém, a linha cai. Começa, então, uma cruzada do escritor. Em busca de motivos, de respostas. Ou, pelo menos, de um desfecho.

Gradativamente, a sombra de Stalin se agiganta. Até tomar todos os espaços. Antes de receber o telefonema, o autor de O Mestre e a Margarida já havia escrito cartas para Stalin. Depois do episódio telefônico, porém, transforma a correspondência em sua obra maior. Faz do ditador o interlocutor de intermináveis diálogos imaginários. Endereça-lhe centenas de cartas. Sem nunca obter resposta.

"É exatamente essa impossibilidade de realização que o move", diz Bittencourt. Para o diretor, "essa relação que ele constrói não se sustentaria sozinha, sem uma resposta. Mas esse Stalin com o qual ele falava já estava na cabeça dele, era uma fantasia, um ideal."

Toda a situação de expurgo artístico estabelecida pelo realismo socialista é evidenciada na peça. A partir dos anos 1930, a corrente estética baniu toda a criação que fugisse da linguagem oficial. Quadro que levaria artistas como Meyerhold, um dos grandes diretores de Moscou, à execução sumária. E que conduziria poetas como Vladimir Maiakóvski ao suicídio.

Mas, antes que se pense que a história encenada ficou restrita ao passado, Bete Coelho lembra: "Essa é uma peça sobre linguagem. Mesmo hoje tem sempre alguém ditando que a gente deve pensar, escrever, fazer".

CARTAS DE AMOR PARA STALIN

Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 5 a R$ 20. Até 18/9.

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