Scott Graham/Unsplah.com
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Carta para meu sobrinho ler depois da pandemia

Henrique, há grandes chances de você não se lembrar desse período quando crescer. Por isso, vou te contar

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 03h00

Henrique, você é um menino de sorte. A pandemia, a quarentena e toda essa confusão que estamos vivendo pegou você com apenas 1 ano e meio. Grandes chances de você nem sequer lembrar desse período quando estiver mais crescido. Por isso, como seu tio e padrinho, vou tentar explicar mais ou menos o que aconteceu (contando que você só vai conseguir ler essa carta alguns anos depois de a covid-19 ter ido embora). 

Tem gente que diz que a covid veio de um animal chamado pangolim. Torço para que ele não tenha nada a ver com isso. O pangolim parece um bicho legal. Procura aí no seu iPad. Aposto que você ia chamá-lo de “pingolim” e fazer todos caírem na risada. A primeira vez que se ouviu falar do vírus foi na China, em Wuhan – mas pode ser que ele já tivesse circulando em outros cantos do planeta. Isso a gente não tem certeza. Mas quando apareceu lá na China, muita gente pensou: “É longe pra caramba”. 

Henrique, você vai aprender mais rápido do que eu que essa coisa de “longe pra caramba” não existe mais. É tudo pertinho. Então, como tudo é pertinho e a Terra é redonda (não acredite se ouvir algo diferente disso), não demorou para o vírus se espalhar pelo mundo.

Você vai ouvir um monte de coisas tristes sobre esse tempo. Vai ser difícil de acreditar. Mas te garanto que foi assim mesmo. A gente precisou ficar dentro de casa para não transmitir ou ser infectado pelo vírus. Não tinha parque, cinema ou  futebol. Nossa vida era da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto, do quarto para o banheiro e só. Os mais sortudos tinham uma varanda. Aí, nas varandas, rolavam uns shows ruins. Mas a gente gostava mesmo assim. 

Ah, também não tinha escola. Mas não se anime. A gente sente falta da escola, Henrique. Te juro. Não precisa rir de mim. Eu sei que é normal todo mundo se falar por WhatsApp, por vídeo e por esse novo aplicativo que você deve estar usando e eu ainda não conheço. Mas quando você não pode dar a mão, beijar e abraçar, tudo o que você mais quer é dar a mão, beijar e abraçar. 

Ah, a gente também teve que usar uma máscara para sair de casa – e não era legal como as máscaras dos super-heróis que você tanto gosta (eu acho). Não foi fácil, Henrique. Durante muito tempo, a gente só teve notícia ruim. No momento em que te escrevo essa cartinha, o Brasil ainda está escalando uma curva de quase 80 mil vítimas fatais de covid. Mas tenho certeza (e fé) que, quando você puder lê-la, a vacina será uma realidade. E todo mundo em casa, e todos os seus amigos, já estarão imunizados.

Na época, veja só, a gente tinha um presidente que não acreditava muito na gravidade da doença. Ele chegou a chamar de gripezinha, acredita? Depois, ele mesmo teve covid – e ficou mais na dele. Não sei dizer se aprendeu sobre como era importante ficar em casa, usar máscara ou ter empatia pela vida dos outros. 

Queria te contar como foi essa quarentena para você, Henrique. Fiquei uns 4 meses sem te ver, mas acompanhei tudo pelos vídeos e fotos que o resto da família me mandou. Você é um menino de sorte. Na quarentena, não te faltou o colo da vovó e do vovô. Mamãe e papai te ensinaram um monte de coisas legais. Você se sujou de tinta, brincou de massinha e correu pela casa feito uma formiguinha atômica.

Você é um menino de sorte. Na quarentena, aprendeu um monte de palavras novas. Descobriu os Beatles, o futebol (aprendeu a gritar gol) e virou fã de um cantor português e de fado (agora quem está rindo sou eu). Embora não tenha tido festa junina, sua mãe te pintou de caipira e colocou “pula fogueira” para você brincar.

Você é um menino de sorte. Experimentou um montão de frutas diferentes. Aprendeu a atender o telefone, a imitar o vovô, a mexer nas xícaras da vovó, a usar o YouTube e muito mais. Ah, fala para sua mãe mostrar um vídeo que você está lavando a mãozinha e ajudando a limpar a casa para não deixar a covid entrar. Fofo. 

Henrique, se você conseguir lembrar de alguma coisa desse período, tenho certeza que vai ser uma lembrança feliz. Tipo de recordação que toda criança deveria ter. 

Mas Henrique, você é um menino de sorte. O país em que você nasceu (não sei se você ainda está morando nele) nunca permitiu que todas as crianças tivessem sua sorte ou oportunidades. Durante a pandemia, crianças como você também moravam em lugares sem espaço para brincar, sem saneamento básico, com papai e mamãe precisando sair de casa para trabalhar e conseguir algum dinheiro para comer. 

Essas crianças são iguais a você. 

Henrique, você é um menino de sorte. Sei que também é um carinha que se importa. Junto com seus amigos, você tem a chance de fazer mais e melhor do que a turma do seu velho tio fez. No futuro, sua geração tem que estar (vai estar) mais preparada para enfrentar infortúnios como a covid, vai acreditar na ciência, vai votar com mais consciência, ter mais empatia, menos preconceitos e lutar para que outras crianças tenham uma infância parecida com a sua.

Beijos. Juízo. E se cuida. Se for me dar um presente, aceito um uísque. 

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