Carta de amor a Michael

Apresentado fora de concurso em Veneza, Bad 25, de Spike Lee, é um filme colossal

LUIZ ZANIN ORICCHIO, ENVIADO ESPECIAL / VENEZA, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h12

Não se poderia esperar de Spike Lee (foto) um documentário convencional de Bad, álbum famoso de Michael Jackson, que está completando 25 anos de estreia. E, de fato, não é. O que se pode dizer é que se trata de um filme colossal, feito de muitas vozes e muito som, uma fantástica recriação dos bastidores de um momento privilegiado do pop. Quem poderia fazer tal filme. Apenas Spike Lee, cuja familiaridade com Jackson o levou a filmar o clipe They Don't Care About Us, no Brasil.

Três anos depois da morte do rei do pop, Lee aparece com esse documentário que parece um backstage privilegiado da produção de um álbum, mas também se espraia pela trajetória de Jackson e das ilustres pessoas que o cercaram. O doc é múltiplo, ouve muita gente importante e é montado de maneira muito esperta, recriando uma vida artística diante de nós, na tela. Quem, senão Lee, teria acesso a tais personagens, como Martin Scorsese, Quincy Jones, Mariah Carey, Cee-Lo e tutti quanti. Difícil imaginar.

Há informação. Ficamos sabendo, por exemplo, que Jackson realizou cerca de 60 músicas para escolher as 11 do álbum. Várias dessas inéditas sairão no álbum comemorativo dos 25 anos de Bad.

Fala-se muito do trabalho exaustivo e obsessivo de Jackson para que tudo soasse espontâneo, como se tivesse lhe vindo fácil. Músicas, empostamento da voz, passos de dança. Tudo era cuidadosamente calculado, ensaiado à exaustão, discutido com músicos e bailarinos (sempre os melhores do mercado) para, por fim, serem colocados no álbum. Jackson tinha também o cuidado para que as músicas escolhidas fossem apropriadas para apresentações públicas. Há temas que só funcionam no estúdio. Ele gravava como se já estivesse se apresentando diante de 80 mil pessoas num estádio de futebol. Há cenas impressionantes de seu show no Estádio de Wembley, na Inglaterra, em 1988.

Mas, além da informação, há também a tentativa de reconstrução de uma carreira sólida, com ancoragem no soul, e no que de melhor havia na música americana da década. Jackson firmou seu estilo, com a voz adolescente característica, embora tivesse extensão vocal até o barítono. Era uma espécie de Peter Pan e sua voz exprimia esse desejo de não crescer - compartilhado por muita gente, o que é uma das chaves do sucesso. De qualquer forma, a impressão causada por Jackson sobre as pessoas que com ele conviveram e trabalharam é muito forte, o que se nota nos depoimentos sobre sua morte precoce.

A imagem do artista sai supervalorizada desse filme, que evita os preconceitos e julgamentos caricaturais sobre o ídolo. Provavelmente, os fãs vão adorar. E mesmo os que não curtem tanto a obra de Michael Jackson sairão com uma visão enriquecida do artista. Desmistificar preconceitos, expandir a sensibilidade e visão de mundo do espectador é uma das maiores funções de um documentário. Bad 25 é, desde já, um dos grandes filmes já feitos sobre um ídolo e sua obra.

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