Carta da África do Sul

Antes de vir para cá, há duas semanas, repassei mentalmente o que sabia sobre a África do Sul. Me lembrei de Cry, the Beloved Country, de Alan Paton, que me deram para ler quando fazia Cultura Inglesa; é um romance bonito, mas um tanto emotivo demais, como o título indica. O mesmo se pode dizer de Cry Freedom, o filme, que vi na mesma época, sobre um dos heróis da luta contra o apartheid, Steven Biko. Me lembrei sobretudo dos livros de Nadine Gordimer e J.M. Coetzee, dois Nobéis de Literatura. Desonra, melhor romance de Coetzee, que lida com as emoções sem abandonar a percepção das ironias, também foi filmado, e bem, com John Malkovich.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Veio à mente ainda Zulu, de Cy Endfield, com Michael Caine, filme de 1964 que fui assistir porque Martin Scorsese, um estudioso da violência, disse que era ótimo ? e é, com uma batalha final tira-fôlego. Mais recentemente, vimos Invictus, de Clint Eastwood, sobre o modo como Mandela entendeu que, mesmo enfrentando a maioria, devia dar força para o time de rúgbi em 1995, embora quase todo composto por brancos, num esporte que os negros daqui também adoram (sim, mais que o futebol). Recordei alguns livros e aulas de história e as imagens de Mandela nos telejornais.

Nesse Google pela minha memória, confesso que muitas referências de outros países africanos se misturaram. Do Congo de Conrad em Coração das Trevas a filmes de Hollywood, como Out of Africa, sobre o Quênia da boa escritora dinamarquesa Isak Dinesen, tudo se insinuou na minha mente. Todos temos no imaginário uma África que se divide entre paisagens fascinantes e tragédias sociais, entre safáris e segregações. Ao chegar aqui, confirmei o esperado: isso tem veracidade, mas faltam milhares de milhas para que se enxergue bem a África. A começar pelo fato de que o continente, apesar de todas as suas semelhanças, é muito mais diverso do que dizem os estereótipos. Sempre me incomodei com o uso do prefixo "afro", que se multiplicou como rótulo de consumo, porque põe em segundo plano essas diferenças.

Para se contrapor a isso, a África do Sul lançou o slogan de que é uma "nação arco-íris", de muitas cores, e assumiu o discurso de que esta é uma Copa do Mundo da África, por ser a primeira no continente depois de 18 edições. Certamente o evento vem ajudando a mudar um pouco a imagem de uma realidade caracterizada apenas pela violência e pobreza. Vemos cidades modernas, boa infraestrutura turística (hotéis, parques e museus), vemos sobretudo uma classe média negra em crescimento. Há menos guerras civis e mais democracia do que havia algumas décadas atrás. Isso, no entanto, não pode ocultar a enormidade dos problemas por resolver.

Quando cheguei a Soweto, houve um hiato grande entre o que se vê e ouve e os fatos. Não é a favela da qual nossa mídia fala, mas um grande bairro de periferia, relativamente urbanizado (até por ser ponto turístico), que tem suas "quebradas" perigosas como tantos lugares semelhantes mundo afora, inclusive Paris. Nasceu "township", como diz seu nome (SOuth WEstern TOwnships), mas está longe de ser uma favela como Rocinha ou Heliópolis, as quais se chamam aqui "shacks" e existem em muitos outros endereços ? Tembisa e Alexandra, por exemplo, em Johannesburgo.

Em Soweto visitei uma das casas de Mandela e, mais importante, o Museu Hector Pietersen (não sei por que não mantiveram Pitso, seu nome original, da etnia sotho), em homenagem ao garoto de 13 anos morto pela polícia nos protestos de 1976. A data de sua morte, 16 de junho, virou feriado oficial, e na quarta passada seu memorial foi visitado e florido. Melhor ainda é o Museu do Apartheid, que não fica em Soweto, mas ao lado de um parque temático chamado Gold Reef City, onde desci na antiga e desativada mina de ouro que mudou a vida da região.

O museu nada tem de cenográfico. É uma das poucas obras arquitetônicas dignas de nota na cidade, concluída em 2003 por um grupo de escritórios coordenado por Sidney Abramowich. A rigor, é um museu sobre Mandela, embora aqui e ali sejam mencionados os outros resistentes, como os citados Biko e Pitso. Há até uma parede que aborda "equívocos e contradições" do ex-presidente, como sua insensibilidade para a questão da aids. Mas impressiona a adoração que existe aqui pelo "Madiba", como é carinhosamente chamado (é o nome de seu clã, significa "reconciliador" e vem da imagem de um homem que preenche as valas que separam as aldeias). Há praças, estátuas e tudo o mais com seu nome; no bairro chique de Sandton, vi um torcedor negro, embriagado, beijar cada uma das letras de seu nome na placa. Idolatria à parte, o símbolo é muito consistente.

O que se nota em sua história é que ele era filho de pais tradicionalistas e divergiu deles com uma educação influenciada por exemplos estrangeiros, como Gandhi e, ora, a civilização que mais admira, a inglesa. Formado em Direito, aderiu por um tempo à luta armada, embora sem ceder ao manual leninista, mas depois se tornou um porta-voz da insurgência pacífica, contrário a qualquer revanchismo racial. As imagens dele diante de sua casa em Soweto gritando "amandla!" (poder!) para o povo completar a frase com "awetu!" (para o povo!) são tocantes. Todos os sul-africanos com quem conversei, de diversas etnias, também mostraram essa ausência de rancor, essa disposição para o convívio.

E olhe que não é fácil. Se países como Brasil e EUA têm muito mais cores de pele, o "melting pot", a África do Sul é mais parecida com outra democracia, a Índia, por sua quantidade de dialetos, clãs e religiões. O zulu é muito falado e visto, por exemplo, mas sua população não chega a um quarto do total. Em placas nas ruas, mídia, conversas em público e escolas, o inglês é quase sempre adotado. Mas entre eles é comum usar outros idiomas; cada um sabe o seu e mais alguns, como sotho, xhosa (o de Mandela), ndelele, etc. Com o tempo, pode-se aprender a distinguir tons de pele e tipos de cabelo, a ver que há muito mais variedade do que se aparenta.

Bem mais difícil é resolver as graves mazelas do país. Em Johannesburgo, cidade mais rica, os bairros são como ilhas, separadas por avenidas que mais parecem estradas, nas quais raramente se veem ônibus e nem sequer existe metrô. Se em Sandton vemos alguns negros, quem domina são os brancos, loiros e ricos e até agora não vi nem sequer um casal inter-racial; já em Soweto, para não falar de bairros piores, vivem 3 milhões de negros e quase nenhum branco. Nas zonas rurais, principalmente de fazendeiros afrikaners, a segregação persiste. A economia não vai muito bem e o desemprego atinge mais de um quarto da população. As doenças e a violência continuam com índices dramáticos. E o governo Zuma ameaça se perder em escândalos de corrupção e moral (a poligamia é comum entre os zulus, mas uma de suas mulheres o traiu, o que virou manchete em todos os jornais), de consequências por medir.

Já li algumas vezes que essa situação da África do Sul, como de todo o continente, de fronteiras nem sempre razoáveis em face dos limites tribais, mostraria que o colonialismo não foi o problema central, já que antes dele as guerras já eram constantes e depois dele houve retrocesso na estrutura institucional legada por europeus. Mas a brutalidade dos colonizadores, movida a ouro e diamante e não a leis e humanismo, é injustificável e deixou marcas de todo tipo. Pelo menos na África do Sul, o clima emocional é outro e não pode ser apreendido por cartões-postais, campanhas filantrópicas e notícias catastróficas. É bem mais complexo.

Uma lágrima. Para José Saramago, que morreu aos 87 anos, ainda produzindo muito. Começou para valer a carreira de romancista já aos 60 anos, mas são justamente seus livros dessa época ? romances históricos como Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) ? os que me agradam mais, por sua mescla de realismo e prosa poética. Depois de Ensaio Sobre a Cegueira (1995) foi se entregando cada vez mais à alegoria e à peroração, contaminando sua narrativa com anacronismo ideológico. Mas era um escritor que amava a palavra, fato mais raro do que se imagina, e suas narrativas sofisticadas conquistaram leitores de todas as partes.

Por que não me ufano. Fazer a Copa no Brasil exigirá mais esforço que construir Brasília. Faltam quatro anos e não se fez quase nada. Só agora Fifa e CBF decidiram que o Morumbi não tem condições de reforma, como já se sabia. E nada faz mais a alegria dessas entidades do que novos estádios.

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