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Fábio Porchat
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Carta ao pai

Prezada Rosely Sayão, meu nome é Fábio Porchat e eu preciso da sua ajuda. Sei que você é de outro jornal, mas não sei a quem mais recorrer quando o assunto é família. Não é nada comigo, é um amigo meu que está passando por uma situação bem delicada. Ele fez um vídeo de humor e recebeu uma ameaça de morte de um blog na internet. Ele estava tranquilo, pois sabia que aquilo era a reação de uma pessoa só e que não ia dar em nada.

FÁBIO PORCHAT, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h11

Passada uma semana, o tal blog já estava fora do ar, o assunto já estava esquecido, mas o pai desse meu amigo, assustado, resolveu pedir ajuda para um amigo senador dele que leu uma carta desse pai no Senado, pediu ajuda ao Ministro da Justiça e o estardalhaço trouxe o assunto de volta à tona só que muito pior. Esse meu amigo tinha pedido pro pai não fazer barulho, não expor a sua vida porque ele já estava resolvendo tudo da forma mais discreta possível, falou que não queria que nada fosse parar em Senado nenhum, mas não adiantou. O pai fez do jeito que ele queria e agora a notícia se potencializou quinhentos por cento.

Eu entendo que o meu pai, digo, o pai desse meu amigo só tenha feito isso querendo ajudar, preocupado com o seu filho e que só tinha boas intenções, mas a vida é minha, quer dizer, do meu amigo, e eu tenho que poder resolvê-la do jeito que eu quiser. Afinal de contas, eu já tenho trinta anos, ele também, e sabemos cuidar muito bem das nossas vidas.

Se eu faço uma piada, eu tenho que aguentar sozinho as consequências dela, não preciso da ajuda de ninguém, e, se precisar, eu peço. Ele pede. Enfim. Parece aquela história do moleque que apanha na escola e o pai vai tirar satisfação envergonhando o filho, como se dissesse, "ele não pode se defender, então eu estou aqui para ajuda-lo". Como lidar com uma situação onde a pessoa não é mais criança, e o pai é imparável e faz aquilo que bem lhe der na telha, nem que isso vá contra a vontade do seu filho?

O diálogo não foi possível, e depois de tudo isso, ele ainda não entende que o filho não gostou de como tudo se sucedeu. Ele acha que está certo. E, com certeza, tomará decisões futuras sem a aprovação do filho. Esse meu amigo ama meu pai, mas esse pai precisa saber respeitar as vontades alheias. E saber que nem sempre as coisas acontecem da forma que ele quer.

Se ele está preocupado com a vida do filho, não seria melhor conversar com o filho antes de tomar atitudes precipitadas? Eu entendo a atitude de um pai que ama seu filho e só quer o seu melhor. Mas o melhor quem tem que saber não é a própria pessoa? Me ajude, Rosely. O quê que esse meu amigo deve fazer? * fabio.porchat@estadao.com

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