Imagem Ruth Manus
Colunista
Ruth Manus
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Carro funerário

Sofia ficará debaixo de lágrimas, segurando uma foto dela e do pai numa tarde rara

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2016 | 02h00

Enquanto eu escrevia um texto de amor, o carro da funerária parou bem em frente à janela. Pelo vidro grande do automóvel via-se a coroa de flores apoiada no caixão de madeira escura. Logo agora?! Logo agora que escrevia sobre a generosidade dos planos conjuntos dos casais que andam de mãos dadas?!

Dentro do caixão estava um homem. Não o vi, mas imagino que seja um homem. Seu nome é João. Enfartou aos 42, só para atrapalhar meu texto sobre amor. Isso é tão típico do João. Eu não o conheço, mas sei que ele é assim. O mundo tem muito João, desses que acha que não precisa ir ao médico e que basta correr 10 km no final de semana para ficar tudo bem. Não fica, João. Agora você está aí, batendo os ombros no caixão enquanto o carro faz a curva. 

Eu estava buscando uma palavra para rimar com tesouro. Mas não podia ser ouro porque fica muito ruim e eu tenho um patamar mínimo de qualidade imaginária. Estava aqui “Tesouro, ouro... Louro, douro... soro? Couro. Couro”. Encontrei a palavra. Couro. Subi os olhos e... Pronto, o carro da funerária, transportando o corpo do João.

João não teve tempo de preparar uma caça ao tesouro para o Tiago e para a Sofia. Estava ocupado preparando seu enfarte. “Cavando a própria cova” soa pesado demais. Eram apenas muitas horas extras, muito stress, poucas regras, poucas frutas. Não era nada demais, ele era um homem forte. Homem forte dentro de corpo humano. Esse tipo tradicional de humano, que enfarta e morre.

A Sofia gostava muito de margaridas, era a única flor cujo nome ela sabia. Vi que a coroa de flores estava cheia delas. Talvez a Sofia não vá mais gostar das margaridas, porque ela vai se lembrar para sempre do cheiro do enterro do pai. Sofia, 9 anos, órfã de pai desde essa madrugada e órfã de flor preferida a partir das 16h de hoje.

O Tiago não vai entender nada. Meninos. Não vai chorar no enterro, nem entenderá o comportamento da mãe nos próximos dois anos. A Sofia vai entender. O Tiago, ainda que de forma inconsciente, se julgará responsável pela mãe até que ela morra, aos 84. Não conseguirá se casar, por julgar ser marido da mãe desde hoje, aos 6 anos. As boas lembranças que tem do pai ficarão desfocadas pela sensação de abandono que reinará em seu peito a partir dessa tarde. Não fará terapia por se achar um homem forte, como seu pai dizia. 

Meu texto sobre amor ficou pela metade. A história que o João tinha em mente também. Planejava ganhar um bônus fantástico agora em dezembro. Diria para a mulher comprar tudo o que os meninos quisessem no Natal. Viajariam para um resort, as crianças ficariam com a recreação e ele responderia aos e-mails com calma. Talvez encontrasse uma tarde para fazer amor com sua mulher, enquanto as crianças fariam uma caça ao tesouro.

Mas eles não irão para resort nenhum. João irá para debaixo da terra. Na verdade, ele queria ser cremado, mas nunca falou sobre isso. Parte porque não tinha tempo, parte porque pareceria fraqueza. E ele era um homem forte. Tiago ficará debaixo da cama, revoltado, sem falar com ninguém, sem querer comer nada. Sofia ficará debaixo de lágrimas, segurando uma foto dela e do pai sentados num gramado numa tarde rara. Laura ficará debaixo de pilhas de papel, tentando liberar o seguro, tentando se segurar em questões práticas para não desmoronar, tentando fazer com que aquela família não morra junto com o João.

Talvez não fosse o João naquele caixão. Ainda. Mas eu acho que era. É tão típico do João morrer numa segunda-feira. De toda forma, o carro já foi. E eu preciso encaixar “couro” em uma frase qualquer no meu texto de amor. Porque este, este não é um texto de amor. Ceci n’est pas une pipe.

Mais conteúdo sobre:
Ruth ManusDoença

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.