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Carona

O fim está próximo, mas os bilionários estão planejando a fuga antes que o mundo acabe

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 03h00

O George Soros anunciou em Davos que vai doar alguns dos seus milhões a universidades que se comprometam a combater o que ele vê como um pendor direitista, no mundo atual e na academia. Soros é daquelas personalidades que valem a pena acompanhar de perto, se possível em mesas de bares, para ouvir o que ele tem a dizer sobre como salvar o capitalismo de si mesmo. Com a certeza de que ele, pelo menos, pagará os chopes para todo mundo.

Há outra razão para tentar se aproximar de Soros e entrar na sua “entourage”, como dizem na Mooca, nem que seja só para carregar a merenda. Como se sabe, a Terra, nossa velha e boa Terra, está chegando ao fim. Talvez demore, mas, do jeito que vai, e do jeito que nós a maltratamos, é certo que o fim da Terra virá: pelo aquecimento global, pelo crescimento das águas até que a Estátua da Liberdade dê um último abano e naufrague, por choque com asteroide ou simplesmente por enfarte. Amigo meu se declarou um otimista, disse que não sabe se há vida depois da morte, mas, por via das dúvidas, vai levar um cartão de crédito. Mas os otimistas estão cada vez mais raros. O fim está próximo, e ninguém faz nada a respeito.

Errado. Tem gente – ou bilionários, uma pequena subdivisão de gente – planejando a fuga antes que o mundo acabe. Você pode apostar que os bilionários estão tomando medidas. Estão construindo arcas em estaleiros camuflados na Nova Zelândia, por exemplo, na esperança de que algo sobreviva ao dilúvio final. Estão fazendo reservas na primeira classe de foguetes que serão disparados para bases na Lua e em Marte. Bases que já existem, ou você pensa que os programas espaciais do Primeiro Mundo até agora eram só por interesse científico, e não a construção secreta de colônias para bilionários?

Você e eu, que não somos bilionários, teremos que contar com o bom coração de alguém que nos assegure uma carona na fuga final. E falou bilionário de bom coração, falou Soros, um filantropo conhecido. Procure Soros. Tente convencê-lo de que você daria um bom garçom na viagem para Lua ou Marte, e um bom limpador de piscinas quando chegassem à colônia. Se não conseguisse convencer Soros a lhe dar carona, paciência. Você pelo menos tomaria uns chopes na conta dele. 

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