Carolina Ferraz aposta no humor corrosivo de O Rim

A paixão do casal parecia tão sincera que a mocinha, como prova de seu amor, decide salvar o mocinho e lhe doa um de seus rins. Mas foi só se recuperar que ele revela sua verdadeira intenção: novamente saudável, foge com outra. A história, verdadeira, foi publicada nos jornais e impressionou a escritora Patrícia Melo que, desejando trabalhar com a atriz Carolina Ferraz, se inspirou nela para escrever O Rim, que estréia hoje, no Teatro Folha. "Patrícia leu essa nota no jornal e achamos algo tão absurdo, tão fora do contexto real que poderia se transformar em ficção", conta Carolina, que interpreta o papel de Rosária, bibliotecária que se relaciona com a vida muito mais pela literatura do que propriamente pela realidade. Vive com a mãe, Dora (Ivone Hoffmann), fissurada em televisão, e com o irmão Carlos (Bruce Gomlevsky), gay que sonha montar um musical sobre Maria Callas. "A rotina da família muda quando Carlos é atropelado por um milionário sedutor, Augusto (Eduardo Reyes), que está à procura de um doador de rim e acaba se envolvendo com todos", continua a atriz. "Mas, na verdade, o que ele quer é aplicar um golpe naquelas pessoas. Assim, o público logo percebe que está diante de uma comédia." Segundo ela, há uma preocupação de a montagem não ser escancaradamente engraçada, o que logo cansaria o público. "A graça que eu consigo obter do personagem se justifica porque as circunstâncias é que são divertidas." Além de atuar, Carolina Ferraz é um dos nomes que assinam a produção - o que, junto com seu trabalho na TV, tornou sua agenda carregada. "Atualmente, o ator é obrigado a se produzir para conseguir os papéis que lhe interessam. É o caso do Marco Nanini, Andréa Beltrão, Marieta Severo, Fernanda Torres. Ao se apaixonar por um projeto, é preciso lutar pessoalmente para conseguir o financiamento", conta ela, que precisou de dois anos e meio para conseguir levar O Rim aos palcos. Apesar dos transtornos e desgastes, há compensações no trabalho de produção, como escolher os colegas com quem vai encenar. "Claro que eu queria estar próxima de pessoas queridas, mas pensei também no perfil exigido para cada um dos personagens", explica. "É muito divertido, mas a palavra final sempre foi a do diretor." E, no caso, Elias Andreato definiu o elenco e suas alterações ao longo da temporada - depois de estrear no Rio no ano passado, a peça perdeu Marcelo Serrado e Heitor Martinez, envolvidos em outros compromissos e substituídos respectivamente por Gomlevsky e Reyes. FrescorO essencial, segundo Andreato, era manter o frescor de novidade apresentado pela peça. "É um espetáculo instigante, pois oferece a possibilidade de sair da comédia mais imediata para trabalhar com um humor mais corrosivo." Como produtora, Carolina preocupou-se também com a preservação da concepção original da montagem, principalmente quando iniciasse a excursão por outras cidades. A cenografia, por exemplo, criada por Daniela Thomas e que inclui diversas estantes com livros, pesa cerca de duas toneladas. "Conseguimos adaptar o cenário sem que se perdesse a sua idéia original", comenta Carolina que, animada por interpretar sua terceira peça, já planeja novas aventuras para o palco. Em 2007, novamente em parceria com o produtor Eduardo Barata, pretende montar um texto do dramaturgo inglês Harold Pinter, vencedor do último prêmio Nobel de literatura. Além de participar de Belíssima, atual novela das 21 horas da Globo, a atriz poderá ser vista também no cinema, participando do novo filme de Hugo Carvana e de O Passageiro, longa de Flávio Tambellini. "Emendei muitos trabalhos que me deixam feliz mas também cansada", comenta ela, planejando viajar no segundo semestre. "Assim, saio um pouco de cena para as pessoas também não se cansarem do meu rosto", brinca. O Rim. Teatro Folha - Av. Higienópolis, 618, Shopping Pátio Higienópolis, 3823-2323. 75 min. 12 anos. Estréia hoje. 6.ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h30. R$ 40 e R$ 50 (sáb.). Até 30/4.

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