Carnaval e modernismo

A notícia de que a escola de samba Pérola Negra, da Vida Madalena, iria desfilar às cinco horas e cinco minutos da manhã de sábado me deixou contente. Haveria tempo para uma dormidinha depois do serviço e antes da folia. Os americanos chamam isto de "disco nap", ou "siesta pré-noitada", em tradução "livre". Nós, da Velha Guarda da escola, com quem tenho o privilégio de desfilar, precisamos desse descanso preparatório. Preciso eu, ao menos.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2011 | 00h00

Um telefonema com a pergunta, "Que número você calça?", é sempre o sinal, no meu caso, de que o carnaval se aproxima. Do outro lado da linha está meu amigo, Pasquale, compositor italiano de samba e presidente do famoso restaurante homônimo. Ele organiza a ala da Velha Guarda da Pérola Negra. A primeira questão é o calçado. O pisante deste ano era - é- estiloso. Postei uma foto dele no Facebook. Azul brilhante e escuro com duas finas faixas vermelhas em diagonal. Mereceu comentários elogiosos até de amigos meus no México, onde, como se sabe, eles levam seus calçados a sério. Não é todo dia que me é dada a oportunidade de andar com um sapato desses.

Dez dias depois, Pasquale telefona de novo e manda passar no alfaiate para tirar as medidas da fantasia. Ele sempre dá um prazo próximo, não mais do que três dias. O alfaiate (adoro essa palavra) fica em uma sobreloja na Fradique Coutinho entre a Rua Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio. Para subir lá precisa-se apertar a campainha e esperar destravar a grade de ferro. É um cantinho clássico do bairro de Pinheiros. Restam poucos alfaiates. Foram vítimas da indústria prêt-à-porter que, apesar do nome em francês, chega com a americanização do Brasil na pós-guerra, segundo conta o historiador Antônio Pedro Tota.

Feita a sesta, tomei banho e vesti a fantasia do carnaval 2011. Isso por volta de uma hora, já na madruga de sábado. Pasquale havia dito que o "esquenta" começaria a essa hora no seu restaurante. É próximo da minha casa, uns cinco quarteirões. Vou a pé. As ruas, desertas. Não há sequer automóveis, ou quase. Sinto um prazer único em caminhar fantasiado pela rua durante o carnaval. Por alguns momentos minha relação com a cidade é outra. É como se tivesse chegado ao País naquela hora, de um reino ou século distante, onde os modos de se vestir e comportar são outros. Saboreio a sensação de exotismo.

O carnaval me atrai, espiritual e intelectualmente, desde a primeira vez que vim ao País, da Califórnia, em 1976, sem ainda falar o português. Uma das características peculiares do Brasil é que sua identidade, sua razão de ser, é criada e mantida a partir de festas populares de massas, como o carnaval e o futebol. Os eventos e datas oficiais pouco significam para o brasileiro.

Os primeiros a amarrar o fio entre o carnaval e a identidade nacional foram os modernistas de São Paulo, os escritores Oswald e Mário de Andrade, junto com a pintora Tarsila de Amaral, por incrível que possa parecer. Para tanto foram necessárias viagens ao Rio de Janeiro, onde a festa era mais desenvolvida e solta no início da década de 20. Manuel Bandeira, que lá vivia, foi o introdutor dos paulistas na folia carioca, ao que parece. Um dos seus primeiros livros se chama Carnaval.

Na década seguinte, Mário Filho, irmão do escritor Nelson Rodrigues, organiza o carnaval no Rio - literalmente. Como conta Ruy Castro, ele fundara o primeiro jornal de esportes no Brasil, O Mundo Esportivo, dedicado sobretudo ao futebol. Mas esquecera das férias dos jogadores, período em que sua publicação ficou sem assunto. Para preencher a lacuna promoveu entre os blocos carnavalescos da cidade um concurso. O mais recente capítulo dessa história se encerrou na semana com a vitória da Beija-Flor. Seu tema, como se sabe, foi a música de Roberto Carlos, imbatível.

Muitos brasileiros dizem não gostar do carnaval. Procuram distância da festa. É compreensível. Mas sem ela não seriam o que são. O País, tampouco, seria o que é. Ligar a noção da alegria à nacionalidade foi uma inovação. Antes franceses e americanos haviam promovido a liberdade, igualdade, fraternidade e até a "busca da felicidade". Mas alegria como valor nacional, só no Brasil e, até onde sei, no Butão.

Como escreveu Oswald de Andrade na década de 1920: "O carnaval no Rio é a festa religiosa da raça". Penso nessa frase todo ano a caminho do desfile da Pérola.

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