Carmen como se fosse hoje

Se gravasse um disco agora, como será que Carmen soaria? Bem, já temos a resposta

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

 

 

Clássico. No CD, que tem 12 faixas ‘refeitas’, o acompanhamento original foi preservado

 

 

     Muito já se especulou sobre os estragos positivos que gênios do passado fariam se atuassem nos dias de hoje. Imagine Pelé, em sua melhor forma, jogando com chuteiras, uniformes e materiais esportivos de última tecnologia. Imagine Ayrton Senna guiando os carros que hoje quase tudo fazem pelos pilotos. Agora imagine Carmen Miranda cantando com a nitidez garantida pelos novos equipamentos de gravação e com um acompanhamento refinado, inédito e moderno, feito por músicos competentes da atualidade. Esse é o resultado que se ouve em Carmen Miranda Hoje, projeto encabeçado pelo cavaquinista Henrique Cazes e pelo jornalista e biógrafo da Pequena Notável, Ruy Castro.

A ideia surgiu no começo do ano passado. E nada mais justo que a atual e as futuras gerações possam escutar essas novas gravações, já que, na época dos registros originais vivia-se um período de absoluta idolatria da voz, com o acompanhamento instrumental sendo relegado totalmente ao segundo plano. Era a famosa Era do Rádio, em que a potência de decibéis elevados dos gogós de nomes como Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Vicente Celestino dominava a cena musical. Era o tempo de reverência ao bel canto.

Assim, muito se perdia da riqueza harmônica e rítmica das composições de Assis Valente, Sinhô, Herve Cordovil, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Ismael Silva, Nilton Bastos e Sylvio Fernandes (o Brancura), entre tantas feras do Estácio. As bases musicais eram mal equalizadas, embolavam-se completamente, formando uma verdadeira massa sonora, sem distinção de agudos, médios e graves.

Por isso, Carmen Miranda Hoje dá uma aula de como se deve tratar o tesouro do patrimônio musical da segunda metade da década de 1930, época em que a cantora havia trocado a Victor pela Odeon e estava em seu auge.

Ponto louvável do projeto foi ter mantido o acompanhamento original - sem eliminá-lo -, o deixando mais encorpado, mais consistente e límpido, acrescentando também mais fraseados e comentários, além de outros instrumentos.

Para isso, Henrique Cazes fez os arranjos das cordas, tocou violão, cavaquinho, violão tenor mecânico - instrumento consagrado por Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto -, e reuniu outros bambas, como seu irmão Beto Cazes (percussão), Luís Filipe de Lima (violão de 7 cordas), Dirceu Leite (flauta, flautim, clarinete e sax tenor) e Ovídio Brito (cuíca) para remixar - no melhor sentido - as gravações originais.

Destaque para ...E o mundo não se acabou, O que é que a baiana tem, Adeus batucada e No tabuleiro da baiana, que, com um acompanhamento mais cristalino, ratificam a modernidade de Carmen e que todos aqueles que vieram depois dela e cantaram da forma mais suingada - como reza a cartilha do bom samba -, têm uma dívida eterna com essa que foi uma das estrelas mais reluzentes da música brasileira de todos os tempos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.