Carmélia Alves, rainha do baião, morre no Rio

Cantora, de 89 anos, sofria de câncer e mal de Alzheimer

ROBERTA PENNAFORT, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2012 | 02h09

RIO - Filha de nordestinos, a carioca Carmélia Alves cresceu ouvindo os ritmos da região, e, nos anos 50, ganhou o título de Rainha do Baião, na Rádio Nacional, pela interpretação de músicas de compositores como Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e gravações com instrumentistas como o acordeonista paraibano Sivuca, a quem "descobriu" no Recife e trouxe para o Rio de Janeiro.

Ela morreu na noite de sábado, aos 89 anos, de câncer. Morava havia dois anos no Retiro dos Artistas, onde seu corpo foi velado ontem de manhã. O enterro seria no cemitério do Pechincha, próximo ao Retiro.

"A última vez que a vi, no Retiro, há três meses, ela não estava bem, mas me reconhecia, apesar do Alzheimer. Quando eu voltei de uma viagem, há uns dez dias, estava em coma, hospitalizada. Ela falava sobre fazermos shows. Só soube que estava com câncer recentemente", contou ontem de manhã a amiga Ellen de Lima.

Carmélia Alves Curvello começou cantando à Carmen Miranda, sua grande inspiração, nos anos 40. Foi eleita "a melhor crooner do Rio" quando fazia shows no Hotel Copacabana Palace, o palco mais elegante da cidade. Participou dos mais importantes programas das rádios Mayrink Veiga e Nacional, além de filmes, e gravou com os conjuntos de Benedito Lacerda e Severino Araújo.

O baião Sabiá na gaiola (Hervé Cordovil/ Mário Vieira) lhe deu sucesso nacional, e os LPs que viriam (mais de 50, vários por ano) lhe consagraram como uma das intérpretes mais populares do País na época. A "corte do baião" era então formada por Gonzaga, o rei, ela e Claudette Soares, a princesa. Mas Carmélia também cantava sambas, frevos, polcas, chulas e marchas.

Com o marido, o cantor Jimmy Lester, fez seguidas turnês internacionais. Eles foram casados por mais de 50 anos e não tiveram filhos.

A morte de Jimmy, em 1998, fez Carmélia cair em depressão, mas nos anos 2000 ela estaria de volta com Ellen, Violeta Cavalcanti e Carminha Mascarenhas no show Cantoras do Rádio - Estão Voltando as Flores. Carminha, que vivia no Retiro e morreu no início deste ano, foi uma grande companheira de fim da vida.

Carmélia já havia passado por outros "renascimentos": em 1977, no palco do Teatro João Caetano, no Rio, com Gonzagão, fez show interpretando clássicos como Qui nem jiló e Trepa no coqueiro.

No fim dos anos 80, iria se unir a Nora Ney, Zezé Gonzaga e Rosita Gonzales, além de Ellen e Violeta, para uma primeira retomada das cantoras do rádio. O grupo viajou pelo Brasil se apresentando "para públicos de todas as idades", lembra Ellen.

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