Carlos, ou o sonho americano

Quando eu era menino, meus parentes falavam de um tio distante que, numa bela manhã ensolarada, disse à mulher que iria rapidamente à Praça de Armas de Arequipa para comprar o jornal. Não voltou nunca mais, e foi somente muitos anos mais tarde que soubemos que ele morrera em Paris. Quando eu perguntava o que esse tio fugido fora fazer em Paris, a avó Carmen e minha mãe respondiam em uníssono: "Foi corromper-se! O que mais poderia ser?" Entre os milhares de projetos que já me passaram pela cabeça afigurou-se certa vez a ideia de averiguar a singular aventura desse parente fugitivo e relatá-la num livro.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

Agora que estive no Chile, descobri que Alberto Fuguet teve a mesma ideia com relação a um tio seu, também desaparecido, mas não em Paris, e sim nos Estados Unidos, e que este autor de fato havia transformado a experiência num livro divertido, triste, pós-moderno e audaz, que acabo de ler numa sentada só: Missing (Desaparecido).

A obra pode ser classificada como novela, pois tal gênero é tão vago que quase tudo pode ser incluído nele, e também porque Fuguet conta a história de seu desaparecido tio Carlos Fuguet, irmão de seu pai, recorrendo à técnica e ao linguajar das novelas, mas seu livro é também muitas outras coisas, e é aí que reside seu maior atrativo: o testemunho de uma busca quase policial por um obscuro personagem extraviado na oceânica sociedade americana; a história de uma família de imigrantes chilenos na Califórnia; uma autobiografia parcial e a confissão de um escritor sobre os demônios pessoais que o incitam a fantasiar e a sua maneira de escrever livros, entre o racional, o espontâneo e o casual.

Mas Missing é, acima de tudo, algo que, tenho certeza, seu autor não se propôs a escrever, o que talvez seja seu maior feito: um retrato das ilusões, êxitos e derrotas dos latino-americanos que fogem para os Estados Unidos de posse do sonho americano. Duvido que algum historiador ou sociólogo tenha mostrado de maneira tão vívida e persuasiva esse dramático transe do desenraizamento das famílias de origem hispânica desde sua terra natal e sua difícil adaptação à terra que adotaram, com êxitos agridoces, esforços corajosos, saudades tenazes e, às vezes, frustrações e tragédias domésticas. O sonho americano é uma realidade, sem dúvida, mas para uma minoria, a ponto de ser para muitíssimos outros apenas um limbo medíocre e, para outra minoria, um inferno.

Tio Carlos era um jovem travesso, rebelde, que se dava muito mal com o pai, nunca se encaixou de fato na família e, um belo dia, caiu na delinquência, com um pequeno roubo que o mandou ao cárcere. Quando saiu, teve por algum tempo a intenção de reformar sua vida, mas as disputas familiares e sua perpétua insatisfação com tudo e todos o levou a afastar-se dos parentes. Um belo dia, estes deixaram de saber do seu paradeiro. Alberto Fuguet tinha por ele carinho e algo mais: o fascínio que sempre acompanha as ovelhas negras.

Muitos anos depois do desaparecimento daquele tio carnal, o autor decidiu procurá-lo. Foi o que fez e, surpreendentemente, encontrou-o, imerso na mais absoluta solidão e ocupando-se de um obscuro trabalho num hotelzinho de segunda ou terceira classe nos arredores de Denver.

Tentativas. Tio e sobrinho renovam a antiga amizade e, em numerosos encontros separados por longos intervalos em diferentes cidades e vilarejos dos Estados Unidos, aquele revela a este sua agitada e versátil existência, o período em que serviu no exército, suas mulheres transeuntes, seus trabalhos itinerantes em albergues sórdidos e hoteizinhos de beira de estrada, a transgressão que o reconduziu à prisão, o desassossego perpétuo do qual nunca consegue se livrar, sua espasmódica carreira de percussionista em bandas musicais ínfimas, seus esforços desesperados e sempre inúteis na tentativa de dar algum sentido à própria vida e encontrar a paz interior.

A história do tio Carlos aparece no livro em um comprido e encantador capítulo, como um monólogo em verso, uma confissão que transpira verdade e tranquila resignação, a de um homem vencido, que nunca se integrou ao meio em que foi transcorrendo sua existência, sempre na periferia de tudo, das famílias bem estabelecidas, dos empregos seguros, dos gringos e dos latinos, da fortuna e da miséria, condenado à mediocridade, a um tipo de extraterritorialidade partilhada com milhares e milhares de outros como ele, seres sem raízes nem referências, vivendo em uma espécie de limbo ao qual só chegam resíduos fugazes da prosperidade e das oportunidades de que gozam os outros, descobrindo a cada dia, a cada passo que dá sobre a areia movediça que é para ele a vida, como o sonho americano pode ser, para tantos, fugidio e fugaz.

Em que falhou o tio Carlos? Nunca foi um preguiçoso. É verdade que não gostava de estudar e preferiu procurar emprego sem receber nenhum tipo de instrução superior, o que o condenava a viver sempre dependendo de empregos muito menores. Ainda assim, em certas épocas contrariou as próprias tendências e chegou a aprender um ofício, o da hotelaria, no qual começava a progredir. Mas a falta de constância fez com que abandonasse sempre aquilo que tinha, e renunciasse àquilo que poderia chegar a ter, em busca de um fantasma inatingível que se desvanecia sempre que parecia estar ao alcance do seu toque. Não sabia o que procurava, mas, graças ao livro de Fuguet, nós sabemos: o tio era um rebelde e nem sequer tinha consciência disso, um ser incapaz de resignar-se à própria sorte e, ao mesmo tempo, vítima de uma confusão que o impedia de descobrir como canalizar toda essa enorme energia e ansiedade, fazendo todo o possível para desperdiçá-las em insignificâncias.

Tio Carlos não é um ser excepcional, e sim o mais comum dos mortais, um rapaz a quem as circunstâncias fizeram perder suas raízes quando ainda era menino, e ninguém o ensinou nem ajudou a substituí-las por outras, de modo que sua vida transcorreu como a de tantos milhões de seres no mundo de hoje, a quem as violências políticas ou religiosas ou as necessidades econômicas arrancam de seus países, levando-os a peregrinar a sociedades às quais jamais se integram, ainda que trabalhem nelas e vivam - ou sobrevivam - ali pelo resto de suas vidas como seres exóticos, excluídos ou autoexcluídos do destino comum.

A tristeza que limita sua história resulta de que, à medida que vamos conhecendo as peripécias cômicas, penosas ou extravagantes protagonizadas por ele, distinguimos certas reservas de criatividade, de bondade, de inocência, de generosidade, que existiam nele e das quais nunca teve ocasião de aproveitar-se para construir uma vida melhor, porque o mundo em que viveu nunca apresentou a ele tal oportunidade. É quase simbólico que o tio Carlos termine, já sessentão e maltratado pela velhice, recebendo uma modesta pensão da previdência social, em um buraco de Las Vegas, cidade da sorte e do dinheiro, das fortunas e das quebras exorbitantes, solitário como um fungo, e acompanhando por correspondência um curso de Negócios e Administração de Empresas.

Insolência. O livro é construído com técnicas e métodos que variam de capítulo para capítulo, nos quais o jogo, o experimento, o humor, a insolência e o desplante trazem um caráter risonho que contrasta com a matéria da história, dolorosa e em momentos contundente.

Trata-se de uma combinação que funciona muito bem, porque exige do leitor uma atenção alerta para que se possa estabelecer a cronologia real a partir dos saltos temporais constantes da narração, e as pausas que as dúvidas e entusiasmos do próprio autor, com seu ofício e vocação, constantes ao longo do livro, oferecem de tempos em tempos, para aliviar o leitor dessa viagem pelo fracasso, pela sordidez, rotina e mediocridade que compõem o tronco central da história.

Muitas partes do livro estão escritas num espanhol cheio de anglicismos que, em momentos, parece a ponto de se converter num "spanglish", sem que isso chegue a ocorrer. Ao contrário, passado um primeiro momento de desconcerto, essa linguagem, que não corresponde, é claro, à dos hispânicos na Califórnia, e sim a uma recriação literária daquilo que muitos deles falam, é de um encanto poético notável, uma demonstração da formidável capacidade que tem o idioma espanhol, nas mãos de um escritor de talento, de se transformar em tantas coisas sem perder a própria personalidade.

Esse estilo não é uma caricatura nem um preciosismo formalista e sim um estilo persuasivo e funcional, porque delata, por meio de sua maneira de falar, o que são aqueles que assim se expressam, a insegurança que os habita, a incompleta mestiçagem cultural e linguística que representam, os dois mundos que os habitam coexistindo com aspereza sem chegar a fundir-se.

Em todos os livros que li de Alberto Fuguet há sempre, junto com a história contada, uma vontade de inovar, tanto na língua quanto na estrutura narrativa. Em Missing, ele consegue esse efeito como em nenhuma outra de suas obras. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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