Carlos, o Chacal, é julgado por atentados dos anos 80

A boina, o casaco de couro e os óculos escuros agora deram lugar a cabelos grisalhos e a uma barriga protuberante, mas Carlos, o Chacal, manteve o ar desafiador ao começar a ser julgado na França por uma série de atentados a bomba na década de 1980.

ALEXANDRIA SAGE, REUTERS

04 de novembro de 2011 | 11h57

O revolucionário de origem venezuelana, nascido Ilich Ramírez Sánchez, tornou-se um dos mais famosos guerrilheiros do mundo ao sequestrar ministros da Opep em nome da causa palestina, em 1975.

Desde que foi preso e condenado à prisão perpétua, há quase duas décadas, Chacal vive numa penitenciária francesa. Agora ele está sendo julgado pelo suposto envolvimento em quatro atentados que mataram 11 pessoas e feriram quase 200 no começo da década de 1980, na França.

"Estou realmente num espírito combativo", disse Ramírez, de 62 anos, à rádio Europe 1 no mês passado. "Não sou temeroso por natureza (...). Meu caráter é adequado a esse tipo de combate."

Esse marxista com boina de Che Guevara se tornou um ícone anti-imperialista nas décadas de 1970 e 80, e seu apreço por mulheres e bebidas contribui com sua mística revolucionária.

"Ele foi um símbolo do terrorismo internacional de esquerda", disse François-Bernard Huyghe, especialista em terrorismo no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em Paris. "Um dia ele podia estar a serviço da causa palestina, no dia seguinte podia ter colocado bombas em trens franceses. Era uma espécie de astro."

Ramírez ganhou o apelido quando um jornalista viu um exemplar do romance "O Dia do Chacal", de Frederick Forsyth, no apartamento dele, e supôs erroneamente que lhe pertencia.

Seu enorme ego hoje se manifesta na realização de greves de fome e no envio de cartas ao presidente dos EUA, Barack Obama. Dentro da prisão, ele se casou com sua advogada.

Mas o Chacal e seu "modus operandi" são anacrônicos, segundo especialistas.

"Carlos, o Chacal, era o Osama bin Laden da sua época", disse seu biógrafo, John Follain, à TV Reuters. "O terrorismo mudou tanto que hoje ele representa uma voz solitária no deserto, uma voz bastante antiquada."

Huygue foi mais direto: "Um homem como Carlos é realmente um dinossauro hoje. Penso nele como um 'vestígio histórico'."

Promotores dizem que as bombas acionadas em trens, estações e carros estacionados, em 1982 e 83, foram uma resposta de Ramírez à detenção pela polícia de duas pessoas ligadas à sua quadrilha, inclusive sua amante.

Eles dizem que as impressões digitais do réu apareciam em uma carta ameaçadora enviada ao ministro do Interior, pedindo sua libertação.

Mas Francis Vuillemin, advogado de Ramírez, diz que a carta não existe e que o julgamento é uma farsa, baseada em provas questionáveis fornecidas pelo serviço secreto francês.

"Obviamente ele não é um anjo", disse Vuillemin à TV Reuters. "Ele próprio se apresenta como um oficial de forças especiais e um líder político revolucionário. São palavras dele, não minhas."

Ramírez pode ser novamente condenado à prisão perpétua. Ele terá de cumprir pelo menos 22 anos.

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