Carlos Galilea

Jornalista espanhol, expert em música brasileira, ele escreve há 22 anos para el país e é curador do Percpan, bem-sucedido festival baiano que chega ao Rio amanhã

Lauro Lisboa Garcia,

03 de outubro de 2010 | 00h10

Desde quando você se interessa por música brasileira?

Eu já gostava muito de bossa nova desde os 14/15 anos. Vim para o Brasil por culpa da música, como fazem alguns que ouvem meus programas de rádio. A cultura de um país é muito importante. Os franceses sempre souberam isso: se as pessoas gostam da sua cultura, da sua música, da sua literatura, você abre as portas para o coração delas.

Quem foi o primeiro artista brasileiro a impressioná-lo?

Milton Nascimento. Um dia li uma matéria de duas páginas sobre ele num jornal francês (minha mãe era francesa), dizendo que era uma maravilha. Então fiquei com esse nome na cabeça. A primeira música que ouvi dele me deixou arrepiado: Vera Cruz. Foi muito forte. Na época o acesso à informação era muito difícil. Então consegui que um tio que morava em Paris comprasse o vinil de Minas. E assim começou. Quando vim para cá pela primeira vez voltei com 50 discos de música brasileira. Hoje compro mais pela internet.

Você tem blog, programa de rádio com muita MPB...

Até escrevi um livro em 1990, Canta Brasil. Comecei a fazer rádio há três anos. Agora o programa é diário e você pode ouvir também em qualquer parte do mundo pela internet. Não deveria falar isso, mas muitos brasileiros me dizem que aqui no Brasil não tem programas como esse. Lá você pode ouvir Egberto Gismonti, Tom Zé, Toninho Horta. Um show que João Gilberto fez em Madri em 1985, e foi gravado pela Rádio Nacional, é exclusivo nosso. Já toquei Imyra, Tayra, Ipy, do Taiguara, inteiro.

Você faz pela música brasileira o que a maioria daqui não faz. Poucas rádios tocam música boa, as redações estão cada vez mais infestadas de gente medíocre em cargos de chefia...

Na Espanha não é diferente. Virou muito jornalismo de fofoca. Não quero criticar, mas nos anos 80 eu comprava os jornais brasileiros e guardava os segundos cadernos como se fosse um tesouro. Hoje tem muita coluna social. Você acha que o público que se interessa por cultura quer saber dessas coisas? Tenho dúvidas. Quando você reclama da falta de qualidade com os responsáveis pela parte cultural, que entraram agora e não sabem de nada, eles dizem que o futuro da imprensa cultural é a New Yorker. Mas por que fazem tudo ao contrário?

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