"Carlos & Mário" revela cartas entre eles

As 161 cartas que o poeta Carlos Drummondde Andrade e o escritor Mário de Andrade trocaram ao longo de 20anos estão no livro Carlos & Mário, que será lançado amanhãna Casa de Ruy Barbosa, no Rio, pela Editora Bem-Te-Vi,recém-criada para reavivar a memória brasileira e que, no mêspassado, reeditou o Arquivinho de Vinícius de Moraes. Acorrespondência de Mário não é inédita, o próprio Drummond aeditou em 1982, com notas e comentários, mas o que o poetaescreveu só vem a público agora e revela o carinho e a admiraçãoentre duas pessoas fundamentais à nossa cultura, emboracontraditórias e contrárias em muitos pontos. "Os dois se conheceram em Belo Horizonte, em 1924.Drummond era estudante de farmácia e, com outros amigos, comoPedro Nava, acadêmico de medicina, encantou-se com asofisticação e a erudição da trupe modernista, que tinha Mário eOswald de Andrade, Tarsila do Amaral e o poeta francês BlaiseCendrars", conta a organizadora do livro, Lélia Coelho Frota."Drummond mandou a primeira carta e Mário deu uma respostatorrencial, como era seu estilo. Até 1945, quando Mário morreu,eles se corresponderam e o livro mostra a evolução pessoal,intelectual e política dos dois. Drummond confessa ser Mário suamaior e mais importante influência intelectual, mas manteve suascaracterísticas. Assimilou o que o amigo lhe trouxe, mas manteveseus princípios literários." Ambos foram grandes missivistas, corresponderam-se comquase todos os artistas e intelectuais do século 20, masguardavam diferenças nessa escrita. O autor de Macunaíma tratavaseus interlocutores como discípulos queridos, com quem discutiaarte, filosofia, política e até suas obras, com um rigor quechegava à crueza, se lhes notasse falta de empenho. Drummond erainformal, falava da família, dos anseios pessoais e dos casoscorriqueiros. No diálogo, o poeta repensa sua arte enquanto oensaísta adoça a formalidade e o leitor de ambos conhece umpouco mais de cada um e dos meandros da cultura brasileira. Além disso, entendemos como funcionou a relação entreduas personalidades tão distintas. Combativo e inquieto, Máriode Andrade foi um guru de seu tempo e lançou idéias que até hojesão aplicadas como inovação. Foi um dos primeiros intelectuais asair pelo Brasil para mapear nossa cultura popular, ajudou aelaborar o conceito de patrimônio artístico construído eimaterial (hoje tão em voga) e sabia conjugar essa produçãointelectual com vida boêmia e uma atividade política que o levoupraticamente ao ostracismo no Estado Novo. Drummond era o oposto, embora não menos instigante.Burocrata e poeta, apaixonado e amargo, progressista efuncionário da ditadura de Getúlio Vargas, sabia equilibrar-sedentro de um governo conservador e trazer colaboradores comoLúcio Costa, Sérgio Buarque de Hollanda, Rodrigo de Mello Francoe outros intelectuais que pensaram o Brasil no século 20. Márioestava entre eles, mas nem sempre porque morou em São Paulo boaparte de sua vida e também porque foi opositor ferrenho doEstado Novo. Em suas cartas, Drummond ainda expõe sua vidafamiliar - fala da alegria do nascimento e do sofrimento com amorte de seu primeiro filho, Carlos Flávio - e seus sonhos dejovem recém-formado, o que ajuda a entender a poesia que vemdepois. Segundo Lélia, no decorrer dos 20 anos, a posição entreos dois se alterna. A admiração é mútua, mas nos anos 40, Márioreconhece a importância de Drummond e o coloca entre os maioresda língua portuguesa, enquanto este lamenta que os versos doautor de Lira Paulistana tenham sido suplantados por seusensaios. Hoje, Drummond é o poeta brasileiro mais conhecido.Qualquer pessoa, de qualquer idade ou classe social, conhece aomenos um verso seu. Mário é cultuado nos meios acadêmicos, massua obra não é popular. "A força da poesia de Drummond éinegável e ensaios têm um público mais restrito", justificaLélia. "Mas assistir à troca de idéia de ambos é sempreenriquecedor." Carlos & Mário terá 500 exemplaresdistribuídos em bibliotecas e universidade e 2.500 nas livrariase custa R$ 166.

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2003 | 17h37

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