Aline Arruda/Divulgação
Aline Arruda/Divulgação

Carlão, despojado, emociona

Diretor é homenageado na primeira noite da mostra e arrebata o público com discurso sincero

Luiz Zanin Oricchio/ BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

Na noite de abertura do 43º Festival de Brasília houve emoção. Não aquela emoção prêt-à-porter, de frases feitas e lágrimas convenientes, que infestam os festivais de cinema. Emoção legítima, improvisada, como não poderia deixar de ser quando o personagem em questão é ninguém menos que Carlos Reichenbach. "Carlão", como todo mundo o chama, é um dos mais importantes cineastas brasileiros em atividade, com extensa carreira de 33 longas-metragens. Mas não faz pose de diretor. Não faz pose de nada, às vezes para desespero de quem cultiva as aparências. Subiu ao palco com uma garrafa de água mineral na mão. "Como ele vai segurar o prêmio?", perguntam amigos do diretor.

Carlão deu um jeito. Recebeu o Candango - o prêmio tradicional do Festival de Brasília - , atrapalhou-se com a garrafa d"água e o microfone, e chamou ao palco sua trupe. Subiram as atrizes do seu filme Liliam M. Relatório Confidencial - Célia Olga Benvenutti, que interpreta a protagonista, Maracy Melo e sua mulher Lygia Reichenbach, que faz um pequeno papel; a produtora, parceira de tantos filmes, Sarah Silveira, e o montador de Liliam M., o crítico Inácio Araújo. Carlão falou muitas e boas coisas sobre o filme em si e o cinema de maneira geral. Mas o melhor estava por vir, no finalzinho da homenagem, quando todos já se preparavam para descer do palco do Teatro Nacional. Carlão pediu mais um minuto de tolerância à plateia e contou uma pequena história.

O caso é o seguinte. Liliam M. foi lançado em 1975. Um dia, Reichenbach recebe o telefonema do crítico Orlando Fassoni, muito influente na época. "Carlão, dê um jeito de ir para o Rio porque tenho informação de que a Célia Benvenutti ganhou a Coruja de Ouro." Cabe explicação: a Coruja de Ouro era, naquele tempo, o principal prêmio do cinema brasileiro, o Oscar do cinema nacional. Sem um tostão no bolso, Carlão e equipe deram um jeito e foram de carro para o Rio. A informação de Fassoni era furada. Não ganharam prêmio algum. "Nunca a Via Dutra me pareceu tão longa como naquela volta para São Paulo", lembra.

Coruja de hoje. E a história terminaria por aí se, no palco do Teatro Nacional, o diretor, com voz embargada pela emoção, não tivesse transformado a noite que era dele em homenagem à sua atriz: "Eu quero aqui substituir um prêmio extinto e morto, por outro, que está mais vivo do que nunca." E deu o seu Candango para a atriz Célia Benvenutti, em substituição à Coruja de Ouro, que nunca veio. Célia Benvenutti simplesmente não sabia o que fazer ou o que falar. Foi surpreendente e lindo porque a generosidade é uma virtude tanto mais admirável quanto rara em nosso mundo. E, mais ainda, no mundinho egoico do cinema. Gente como Carlão é notável exceção à regra.

Sendo exceção como pessoa, seu trabalho como artista coerentemente foge à regra. Liliam M., que se viu em ótima cópia no Teatro Nacional, é obra de difícil qualificação, embora se encontre na confluência de várias influências. Primeiro, claro, o cinema da Boca do Lixo, do qual o próprio Carlão foi um dos participantes. Em seguida, o cinema de Rogério Sganzerla, com sua vocação paródica. Mas, se você buscar, também vai encontrar referências ao cinema japonês de Sugawa e Imamura, além de muitas outras. Carlão é um cinéfilo imoderado, baixa filmes na internet como um garoto e cozinha ingredientes múltiplos para produzir receitas muito especiais. E com assinatura inconfundível.

Se alguém contar a história de Liliam M. parecerá algo bem banal. No início, ela se chama Maria e é uma mulher da roça. Abandona o marido e foge com um vendedor ambulante falastrão. Envolve-se num acidente, chega à cidade, emprega-se na casa de um industrial, de quem se torna amante, prostitui-se, conhece políticos, etc. O modo de realizar a história é que a torna tão atraente. No início é a própria Célia Benvenutti que se apresenta como intérprete da personagem Liliam. Temos aí um metafilme. Em seguida, o tom constante de paródia, que pode desagradar a quem se fixa no registro realista. A música entra como elemento onipresente - "Usei e abusei da discoteca deixada por meu pai, tudo em bolachões de 78 rotações" - conta o diretor. Muita música romântica americana, música brasileira e até melodias alemãs.

Num tempo de ditadura, o filme dialoga com a pornochanchada, mas não deixa de fazer alusão a personagens da época, como o empresário Henning Boilesen, que financiava a tortura. "E também fala da assim chamada direita esclarecida, como Roberto Campos e Delfim Neto", lembra Carlão. Enfim, ecos da república dos generais impregnam o tom um tanto apocalíptico do filme, que vai de momentos grotescos a uma ternura poética que beira o melodrama. Ninguém faz filmes como Carlão Reichenbach.

Na íntegra

A Lume acaba de lançar o DVD com a versão integral do filme, ou seja, poupada da tesoura da censura que, na época, "comeu" 25 minutos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.