Carla, a estrela sem intervalos

Calça jeans preta larga, blusa branca igualmente folgada, cabelos em desalinho, um cigarro de Bali de cheiro forte entre os dedos. E grandes olhos verdes e faiscantes. "São o reflexo de tensão, medo, felicidade e concentração da estréia...", justifica Carla Camurati, 41 anos. É quarta-feira e Carla está nos bastidores do Teatro Municipal, acompanhando o ensaio geral da ópera ´Carmen´, que entrou em cartaz anteontem. "Carla é moderna e perfeccionista, além de ser uma excelente diretora", diz Luciana Bueno, que interpreta a protagonista. "Não se irrita, mas gosta de tudo exatamente no lugar", explica Pelé, chefe de palco. "Carla supervisiona todos as etapas, até o delineador dos figurantes. Mas é doce nas colocações", acrescenta Vanda Regina, chefe da maquiagem. "Estou nervosa porque o ensaio geral é a primeira vez para valer", diz a diretora, que também acumula os cargos de atriz, produtora e distribuidora. "Esse negócio de atuar em várias funções foi por mero acaso. Primeiro quis ser diretora e descobri que, para isso, precisava aprender a produzir, captar recursos. Depois, vi o quanto é importante ter uma boa distribuição e então percebi que também seria necessário entrar no ramo", diz Carla. Em 19 anos de carreira, Carla estendeu seu currículo por várias áreas. Fez sete filmes, seis novelas, quatro espetáculos teatrais, quatro curtas-metragens, dirigiu três filmes e distribuiu quatro. Só neste ano, está envolvida em três projetos além de ´Carmen´. O mais curioso deles é a volta de Carla à frente das telas. No fim do ano, vai estar no longa de José Antônio Garcia, ´Ele me Bebeu´, adaptação para o cinema de um conto de Clarice Lispector. "Mas não tenho vontade de deixar de dirigir e produzir para ficar só como atriz.Pelo menos, não por enquanto". Carla conta que ainda no final do ano vai rodar seu quarto filme: a adaptação de ´O Mistério de Irma Vap´. A peça, exibida no começo dos anos 90, trazia no elenco Marco Nanini e Ney Latorraca, atores que estarão no filme. Para julho, está prevista a estréia de uma versão infantil da ópera ´O Barbeiro de Sevilha´, idealizada, produzida e dirigida por ela. O espetáculo deverá entrar em cartaz em Belo Horizonte. É sobre muitos desses projetos que Carla fala a seguir. A conversa foi realizada minutos antes de o ensaio geral começar e, por isso, entrecortada pelos inúmeros pequenos imprevistos da estréia. Jornal da Tarde - Todos da sua equipe a classificam como calma e perfeccionista. Você concorda? Carla Camurati - Fico elétrica nos dias que antecedem a estréia. Hoje, por exemplo, estou trabalhando desde manhã. Cheguei ao teatro às 13h e devo ir embora só depois da meia-noite. Sou obsessiva em atingir as metas e fico atenta para que nada escape do controle. Mas não adianta. No dia da estréia, sempre reparo em um detalhe que não me agradou, em algo que poderia ter sido mudado. (Chega o maquiador afobado: "Você pediu para fazer mudanças no look da Luciana?" E Carla responde: "É que estava fazendo uma sombra embaixo dos olhos dela. Dava um efeito pesado. Viu como fica bonito mais leve?" Ele insiste: "Mas será que o público vai perceber? A maquiagem está tão fraquinha..." Firme, mas sem alterar a voz, Carla finaliza o debate: "Ah, o público com certeza percebe. É que não quero minha Carmen uma perua, uma boneca") Jornal da Tarde - De onde veio a idéia de fazer uma ´Carmen´ nada fatal? Carla - Carmem era uma cigana. E vi montagens em que ela aparece como perua rica, arrumadíssima, toda vestida de vermelho. E achei que não era isso. A Carmen era conquistadora justamente pelo jeito moleque. A Carmen, na verdade, é uma safada... Jornal da Tarde - Além de ´Carmen´ você tem outros projetos? Carla - Tenho uma equipe muito boa. Enquanto estou aqui, tem duas pessoas tocando a produção de ´O Barbeiro de Sevilha´ e ´O Mistério de Irma Vap´ no escritório. Quando comecei nesse ramo, com ´Carlota Joaquina´, era difícil fazer cinema por causa da extinção da Embrafilmes na era Collor. Então fui obrigada a conhecer todas as etapas para que meu filme desse certo. Hoje, não consigo mais ficar de fora do processo de produção. (Suzana Macedo, assistente da diretora, interrompe nervosa: "A coreana não quer usar o lenço." Carla arregala os olhos com espanto e suspira: "Ah, mas vai ter de usar." Vira-se para a repórter: "Ai, com licença, mas vou ter de ver isso". Dez minutos se passam.) Jornal da Tarde - Televisão está nos seus planos? Carla - Recebi inúmeros convites. Penso em fazer uma minissérie.(Desta vez, a própria Carla interrrompe: "Hum... São quase 18h30, hora do espetáculo. Vamos ver?")

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.