Carisma, uma dádiva

Maria Callas é o exemplo máximo desse dom que não se ensina e é eterno

Zachary Woolfe, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Na sexta-feira, 19 de março de 1965, Maria Callas voltou a cantar no Metropolitan Opera depois de uma ausência de sete anos. A obra era a Tosca, de Puccini; foi uma das noites mais aguardadas na história do Metropolitan.

No dia seguinte, Harold Schonberg escreveu no New York Times que, quando Maria Callas surgiu no palco, os aplausos foram tão intensos que interromperam a performance durante alguns minutos. No final, Callas precisou voltar ao palco 16 vezes. Seu trabalho foi realmente sensacional. "A sua concepção do papel", escreveu o crítico, "foi eletrizante".

Se você teve a oportunidade de ver muitas interpretações e teve alguma sorte, com certeza sentiu este tipo de eletricidade.

Os críticos chamam isso de carisma. E, nos últimos meses, as críticas que tenho lido no Times referem-se ao "carismático barítono russo Dmitri Hvorostovsky", ou "a carismática Helene Grimaud", ou também à "tranquila e carismática cantora e compositora Sam Amidon". Eu mesmo qualifiquei o finale Allegro de um pianista como "brilhantemente carismático" e um contratenor como "entusiasticamente carismático". Referindo-me a um concerto beneficente para o Japão, escrevi que o encerramento com músicas rock e pop "contou com uma variedade deslumbrante de cantoras carismáticas".

O termo tem sido muito utilizado, mas, com frequência, é tratado superficialmente. Quando um artista é tachado de carismático, sei o que significa. Você também sabe. Mas o que significa? Os intérpretes carismáticos são aqueles de quem você simplesmente não consegue desviar os olhos. Seu carisma é quase uma presença física, uma centelha que confere energia à mais modesta passagem musical.

Quando estamos diante de uma interpretação carismática, ficamos em êxtase, simultaneamente atordoados e concentrados, galvanizados e ampliados. Entregamo-nos a alguma coisa pura e fundamental, felizes e ao mesmo tempo insatisfeitos. Carisma evoca a melancolia, um sentimento vago de amor não correspondido. Diante de algumas interpretações de uma ária ou de um movimento, eu me vi de repente inclinado para frente, como se algo me puxasse contra minha vontade.

Carisma requer que você reconheça um novo e enorme conjunto de possibilidades. É imperioso, uma dádiva pura, inexplicável. Carisma não se adquire com a idade; um artista é carismático aos 16 ou aos 60 anos. Um treinamento rigoroso só vai reforçá-lo ou concentrá-lo, mas jamais conseguirá criá-lo. Há pessoas que tentam produzir carisma exagerando ou escolhendo músicas que são muito rápidas ou muito altas, ou tentam fascinar com a técnica. Mas um artista realmente carismático absorve a plateia desde o início. E, embora o carisma pareça ser um julgamento subjetivo, há uma unanimidade indiscutível quanto ao reconhecimento dele: sabemos quando vemos.

O intérprete que tem carisma não o perde nunca, mas o cristaliza em determinados momentos. Um exemplo: no segundo ato de La Traviata no Metropolitan, depois que Violeta renuncia ao seu amado, a soprano Marina Poplovskaya veio para a beira do palco e interpretou "Dite alla giovine" com uma delicada fragilidade, parecia de repente completamente desamparada. Uma outra cantora poderia ter imitado a sua postura, poderia ter cantado de modo ainda mais brilhante do que ela, mas foi seu carisma que tornou estas duas passagens inesquecíveis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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