Arquivo Pessoal
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Carinhoso tributo aos renegados

Elogiado, Wells Tower focaliza os perdedores da América em seus primeiros contos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista Wells Tower

Escritor norte-americano

Listas de jovens promessas literárias pululam aqui e ali e nem sempre o novo escritor confirma a expectativa. Não é o caso, porém, do canadense naturalizado norte-americano Wells Tower, apontado pela revista New Yorker como um dos 20 escritores mais importantes da atualidade com menos de 40 anos. Aos 38, ele teve seu livro de estreia, a seleção de contos Tudo Destruído, Tudo Queimado (lançado agora pela editora Rocco no Brasil), elogiado duas vezes pelo jornal The New York Times e por grandes críticos da casa, caso de Edmund White e Michiko Kakutani - ela, aliás, destacou a obra como uma das melhores entre as lançadas em 2009.

Tower suou para alcançar tal sucesso. Formado em antropologia e sociologia e pós-graduado em literatura ficcional, ele rodou os Estados Unidos fazendo bicos de consertos em geral até estrear na literatura. Começo, aliás, forçado pois precisou convencer o editor da The Washington Post Magazine a publicar um artigo sobre pessoas que trabalham durante o carnaval.

Era, na verdade, a ponta do iceberg pois tanta andança pelo interior norte-americano apurou sua sensibilidade para os desconhecidos, aquelas pessoas que na glamourosa escala social passam despercebidas. Assim, os nove contos de Tudo Destruído, Tudo Queimado são protagonizados por homens e mulheres que enfrentaram relações fracassadas e o abandono e, na busca de momentos de paz, acabam afundando ainda mais. Tudo descrito por um olhar ao mesmo tempo seco e carinhoso, que revela compreensão para com aqueles que desonram a mítica da América vencedora. Sobre seu método de trabalho e preferências, Wells Tower conversou por e-mail com o Estado.

Os personagens de seus contos têm uma linguagem particular. Acredito que seja fruto de sua capacidade de observação e também pelo conhecimento da cultura pop contemporânea e até de elementos tecnológicos. Você escreve para sua geração?

Como vejo muitas histórias destituídas desses elementos a que você se referiu (tecnologia, cultura pop e outros), isso aumenta minha fome de jovem escritor, o que me deixa à vontade para criar um mundo inteiramente meu, livre do ônus de ser política ou culturalmente relevante. Tal impulso pode ter relação com George W. Bush, que ocupava a Casa Branca quando os contos foram escritos. O desespero que senti sobre o comportamento da nação foi compartilhado por muitas pessoas e talvez eu tenha preferido escrever aquelas histórias como forma de fuga. E não, não pensava em minha geração enquanto trabalhei em um livro. Eu me lembrava mais da geração de contistas que me antecederam e que iluminaram meu caminho.

Seus personagens são totalmente fictícios?

Nenhum deles está em débito com algum conhecido, embora todos se assemelhem de forma frankensteiniana com pessoas reais. Faces, mãos, costumes, histórias de pessoas que conheci rapidamente ou mesmo intimamente foram inspiradores para atender às necessidades da história.

O mercado editorial sofre atualmente mudanças profundas. O que você pensa dos e-books e da possibilidade de alterarem a forma de leitura das pessoas?

Bem, eu acho que eles são muito medonhos. Na minha opinião, a internet tem nos treinado a sermos pobres leitores das palavras que surgem nas telas. A tendência é reduzir tudo que é lido a mero "conteúdo", ou seja, recheiam sua leitura com o que consideram ser a essência: a contagem de corpos no último bombardeio, o tempo em Londres, os termos do divórcio da estrela de cinema. A ficção literária vive em cada palavra, em cada frase. Ela não pode ser meramente desnatada. Talvez os leitores mais jovens sejam capazes de investir o tempo adequado na leitura de seus e-readers, mas eu não consigo.

A narrativa jornalística americana tem se inspirado muito na ficção e utiliza suas ideias a partir do arco narrativo clássico. Você acredita que ainda haverá um lugar para uma consciente narrativa literária?

Boa pergunta. Habitualmente escrevo muitos textos jornalísticos e é verdade que está ficando cada vez mais difícil encontrar revistas dispostas a publicar artigos literários de não ficção que aceitem o kit de ferramentas de um contador de histórias. Em parte, culpo a tela dos computadores: quem tem paciência para ler um texto de não ficção de 10 mil palavras na web? Eu não tenho. Dito isso, a narrativa é nossa maior riqueza, pois é vital para compreender o mundo que nos rodeia e duvido que ela possa ser destruída, nem por 10 bilhões de computadores.

Você acredita que um romancista deva ter uma obrigação moral com seus personagens e com seus leitores?

Questão complicada. Para mim, autores de ficção são obrigados a transmitir algo verdadeiro sobre o que é ser humano, quer dizer, o que significa ser um organismo consciente em um mundo de consequências morais que podemos escolher, ou não, ignorar. Será que meu texto contém conteúdo "moral"? Não, assim como a vida não tem.

Qual desafio da escrita você abraça? E qual evita?

O mais duradouro que abraço é o de apresentar, de forma honesta, incursões na mente de personagens que sejam totalmente diferentes de mim. E, como mencionei antes, acredito que ainda me encolho em encarar o desafio de fazer um diagnóstico moral e político da sociedade por meio de minha ficção, ao menos de uma forma mais ostensiva. Eu reservo esse desafio para meus textos jornalísticos.

Muito se comenta sobre mudanças mundiais após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Para um escritor, foi, de fato, um fato marcante?

Eu morava em Nova York naquele dia. E foi - como para a maioria dos americanos - minha primeira experiência pessoal com a violência em uma escala histórica. E, claro, a situação mudou de forma inalterável e perturbadora desde então. Não posso dizer ainda que tenha me alterado como escritor. Mas, como todo o mundo foi modificado e uma nova realidade surgiu, não posso dizer que, mesmo que eu tente evitar, não apareçam influências inevitáveis em minha ficção.

E as influências literárias?

Ah, são muitas. Aqui vai uma lista dos que gosto muito: Joan Didion, William Faulkner, James Joyce, Denis Johnson, Thom Jones, Edward P. Jones, John Cheever, Frederic Barthelme, Donald Barthelme, Ian Frazier, Nicholson Baker, G. B. Edwards, Raymond Carver, Lorrie Moore, Larry Brown, George Orwell, Evan S. Connell, Tobias Wolff, Allan Gurganus, Barry Hannah, Charles Portis, Flannery O"Connor, Richard Yates, Sam Lipsyte, Joshua Ferris, Mary Oliver, Louis Gluck, David Foster Wallace, Nathaniel West, E. B. White, A.J. Liebling, Joseph Mitchell, Peter Taylor, Walker Percy, V. Nabokov, George Eliot, e outros.

TUDO DESTRUÍDO, TUDO QUEIMADO

Tradução: Adriana Lisboa

Editora: Rocco

(256 págs., R$ 39,50)

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