Carinho tardio na face do pai

Uma canção de ninar dá partida a Ribamar, no qual José Castello revê a figura paterna

Entrevista com

Sílvio Barsetti, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Crítico literário e biógrafo de Vinicius de Moraes, José Castello é autor e personagem de Ribamar (Bertrand Brasil), romance construído a partir de rascunhos afetivos que moldam uma relação difícil, embora terna, entre pai e filho. Nesta entrevista ao Estado, ele conta que o desenho do livro nasceu em 1973, quando, ainda jovem, presenteou José Ribamar com Carta ao Pai, de Kafka.

Três décadas depois, um amigo, escritor, reconheceu a dedicatória de Castello no alto de uma folha amarelada de um exemplar kafkiano acomodado num sebo carioca.

De volta com Carta ao Pai, e sem saber exatamente como a correspondência que jamais foi entregue a Hermann Kafka trocou a casa de José Ribamar por uma prateleira empoeirada da zona sul do Rio, Castello sentiu-se no centro de um enredo com o qual conviveu durante alguns anos até concluir seu segundo romance.

"Ribamar não é um livro "sobre" meu pai, mas "através" de meu pai", diz Castello, que passou alguns dias em Parnaíba (PI), terra natal de José Ribamar, não em busca de vestígios do personagem e sim com o propósito de exercitar os atalhos da ficção.

Ribamar é pontuado o tempo todo por Carta ao Pai, de Kafka. Qual a relação entre os livros?

Ribamar nasceu de Carta ao Pai, um livro é filho do outro. Não sei se bom filho, mau filho, mas filho. Livros também guardam laços de sangue. Em 1973, dei de presente a meu pai, José Ribamar, um exemplar de Carta ao Pai. Ele faleceu em 1982. Nunca soube se leu o livro. Há quatro anos, um amigo reencontrou esse livro, o mesmo livro, em um sebo do Rio. O autógrafo comprova isso. Comprou-o e me mandou de presente. Do Carta ao Pai que 30 anos depois retornou às minhas mãos nasceu Ribamar.

A ideia de um "acerto de contas" tardio e impossível entre filho e pai o levou a escrever Ribamar?

Queremos sempre estar quites com o mundo, mas nunca conseguimos. Este "nunca conseguir" é a própria vida. Enquanto a ciência perfura as coisas em busca de seu centro e a religião se eleva na ilusão de vê-las por inteiro, a literatura dança em torno delas. Ninguém escreve um romance para dizer a verdade, ou chegar à verdade. Para a literatura, o mundo é um enigma em torno do qual só nos resta girar e dançar. Com alguma sorte, às vezes roçamos o rosto da realidade. Na maior parte das vezes, fracassamos. E isso é tudo. A literatura é essa dança. Talvez por isso montei Ribamar em cima de uma partitura musical.

Você define seu livro como uma travessia, na qual só lhe restava inventar uma verdade. Que verdade é essa?

A verdade precária, incompleta e frágil que a literatura nos oferece. O mundo contemporâneo é arrogante. Temos sempre que vencer - na carreira profissional, no mundo acadêmico, no mercado de capitais, na copa do mundo. Não suportamos os derrotados e, no entanto, trazemos a derrota no coração. É o encontro com o fracasso que nos dá a possibilidade de invenção. Aprendi isso lendo ficções. Em um mundo cada vez mais pragmático e duro, a literatura se torna o último reduto da fragilidade. Nela, o sujeito ainda pode dizer que falha, que não sabe, que se sente desamparado e perdido. E nem por isso precisa desistir de ser.

Você - o narrador de Ribamar - utiliza sonhos como instrumentos de ficção. São imagens e diálogos "reais" que lhe acorrem durante o sono?

Muitos dos sonhos narrados em Ribamar são, de fato, verdadeiros. Outros, não. Assim como sou só em parte o narrador do romance. Sempre dei muita importância aos sonhos. Mas em Ribamar, pela primeira vez, resolvi deixar que os sonhos guiassem minha escrita. A cada sonho, muitos deles não narrados no livro, o romance se modificava, a própria estrutura às vezes rachava. Aprecio os sonhos porque eles nos diminuem e nos apontam nosso devido tamanho. Além disso, o escritor escreve como quem sonha. Ele não é um comandante de palavras, como diz a imagem contemporânea do escritor. Mas alguém arrastado pelas palavras, a elas submetido. Assim como em um sonho, nunca sabemos aonde um relato vai nos levar.

No mundo de hoje, a figura do escritor se confunde ou com a do intelectual ou com a do astro pop. Essa visão se afasta das duas figuras. Para você, quem é o autor?

O escritor se define, justamente, por não saber quem é. Não sou dono dos meus livros, eles me vêm. Não estou falando de musas, ou de psicografias, mas de algo que acontece dentro do escritor. Na verdade, dentro de qualquer homem. O escritor apenas se aproveita da condição dividida de todo sujeito. Em geral, disfarçamos nossa parte escura. O escritor, ao contrário, a coloca em primeiro plano e dela se alimenta. O escritor é como o Édipo que, só porque se cega, chega enfim a saber.

Por que a estrutura do livro tem como base uma canção de ninar?

Sempre que estou no Rio, leio contos de fadas para minha velha mãe. Um dia, em um intervalo, ela começou a cantarolar uma canção. Era a Cala a Boca, a canção de ninar com que meu pai me fazia dormir. Para minha surpresa, ela se lembrava de toda a música. Depois, pelo telefone, eu a cantei para meu irmão, Marcos, que a transcreveu em uma partitura. Quando a partitura me chegou, descobri que estava diante da "alma" de meu romance. Através dessa música, meu pai e eu tivemos nossas primeiras conversas. Era a estrutura que me faltava para ordenar meu amontoado de notas. Mais uma vez, aceitei que o acaso mandasse em meu livro. Que o acaso o escrevesse, e não eu.

Em viagem recente a Parnaíba (PI), onde seu pai nasceu, você encontrou poucos vestígios de seu personagem, que morreu em 1982, bem longe dali. O que o motivou a fazer essa incursão?

Viajei a Parnaíba sabendo que não encontraria vestígio algum de meu pai, que deixou a cidade nos anos 1920. Viajei justamente por isso. Não fui para ver, mas para inventar. Lá me surgiu a figura do doutor Martins, um de meus personagens. Um velho centenário, cego e demente, que se diz contemporâneo de meu pai e com quem travo uma relação incoerente, mas intensa. Precisei ir a Parnaíba para inventar o doutor Martins, que não existe. Você entende? A literatura não é fotografia, ou reportagem, ou documentário. Não trata da verdade, ou da realidade. Quando nos cega para a onipotência e a arrogância, ela nos permite, enfim, criar.

Para recompor fragmentos de uma relação ambígua, você se passou até como biógrafo de seu pai.

Ribamar não é um livro "sobre" meu pai, mas "através" de meu pai. Supõe-se, em geral, que a literatura seja uma isca na qual a realidade deva grudar. É com essa pretensão que escrevemos biografias, eu mesmo já escrevi. Mas a literatura está em outro lugar: ela não é uma isca, uma armadilha, ou um espelho, a que o mundo deva se submeter. É mais uma janela que abrimos de repente e em cuja súbita claridade nos cegamos. O mundo é complexo e é indecifrável, mas temos imensa dificuldade para aceitar isso. A literatura, ao contrário, parte dessa constatação. Depois de escrever Ribamar estou, provavelmente, ainda mais distante de meu pai. Mas, pelo menos, fiz um carinho tardio em sua face.

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