Carícias, sussurros: a invasão francesa

Da terra de Asterix chegam duas atrações, a banda Nouvelle Vague e a cantora romântica Laetitia Sadier

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Oui, é hora de ouvir o que têm a dizer os franceses. Na próxima semana, duas atrações nos palcos do País trazem algumas das melhores experiências recentes do pop da terra de Asterix.

Primeiro, o coletivo, o grupo Nouvelle Vague. Preconizando um inusitado amálgama de bossa nova com o pós-punk do início dos anos 1980, o NV chegou a vender meio milhão de discos dos dois primeiros trabalhos (Nouvelle Vague, de 2004, e Bande A Part, de 2006). Na verdade, a banda é a feliz união de dois produtores, Marc Collin e Olivier Libaux, que recrutam eventualmente um time de supercantoras para gestar um álbum, como Björk, Hope Sandoval e Camille Dalmais, além das caseiras Melanie Pain e Nadeah Miranda.

O NV esteve em São Paulo há três anos. Agora, já tem ingressos esgotados para o único show na cidade, quinta-feira, no Clash Club. O grupo é um culto à reinterpretação. Tocando versões de músicas de Depeche Mode, Echo and the Bunnymen, Talking Heads, Joy Division, Soft Cell (e algumas menos conhecidas, como Psyche, do KJ"s, e Sorry for Laughing, do Josef K"s, eles comeram o mundo pelas bordas). Agora, chegam a bordo do mais recente disco, batizado simplesmente de 3, que encontra o NV partindo um pouco mais para o lado da Jamaica e do Caribe, mas com a mesma pegada de bossa. "O Nouvelle Vague surgiu da ideia de fazer um cover de Love Will Tear Us Apart, do Joy Division, tornando-a uma canção de bossa nova. Quando falei com Olivier, ele sugeriu fazer covers de outras canções em ritmo de bossa nova. O mais legal nessa coisa de "tornar new wave em bossa" é criar algo realmente forte e diferente dos originais", conta Collin.

Segundo ele, todo o segredo consiste em recuperar músicas que tiveram algum tipo de impacto emocional em sua vida durante a juventude. E, adiante, recolocar isso em uma perspectiva totalmente nova. "Mais que um trabalho de arqueologia musical, é um trabalho de colecionador. Sempre fui esse tipo de nerd musical, e me lembro de fazer fitas cassete quando adolescente com discos raros importados e vendê-los na escola secundária para os colegas. Sempre quis ouvir algo diferente, não hits de rádio, e sempre procurei por faixas maravilhosas."

O fato de ser uma banda "rotativa", com novos membros todo o tempo, segundo ele diz, é bacana porque mantém tudo sempre com um certo frescor. O show do NV no Brasil vai contar com Helena Nogueira e Karina Zeviani nos vocais, Marc Collin (teclado), Thibaut Barbillon (guitarrista), Spencer Cohen (bateria) e Valente Bertelli (baixo).

Dama solitária. A outra grande atração francesa da semana é Laetitia Sadier, frontwoman de uma das grandes bandas indie dos anos 1990, o Stereolab, e que colaborou em álbuns de grupos, como Galaxie 500. Ela vive em Londres, de onde falou ao Estado por telefone. "Serei somente eu e minha guitarra elétrica", avisa, sobre a turnê que faz pelo País - toca no Sesc Vila Mariana na quarta-feira. Mas já esteve por aqui e conhece Belo Horizonte, Rio, São Paulo. Está de volta para lançar seu primeiro disco-solo (ela é também a "dona" de outro grupo indie, o Monade).

Algumas das canções de Laetitia, como Vent du Sud, soam também como primas da bossa nova, e ela não nega a influência. "Sim, a textura é um pouco brasileira, aquela coisa simples e ao mesmo tempo muito sofisticada. Adoro. Acho que, por meio da busca da leveza, há alguma ligação", disse. Há também muito folk, algum trip-hop e certa ambientação típica de Ennio Morricone. "Eu sonho de noite com essa música de western spaghetti. Estou longe do gênero, mas há algo que partilho com ele, acho que o apreço pela melodia."

Com o Stereolab, Laetitia (pronuncia-se Leticia) conta que tocou para 17 mil pessoas em estádios (abrindo para o R.E.M.) e para um número também alto de espectadores no Hollywood Bowl (abrindo shows para o grupo Air). "É diferente tocar para 10 mil pessoas e para 70 pessoas. Num lugar pequeno, sozinha com minha guitarra, é possível ver a música intimamente", adianta.

Ela discorda da tese do cantor do Placebo, Brian Molko, que diz sentir uma experiência análoga à sexual quando está no palco, à frente de uma audiência. "Eu penso que é uma questão de interpretação pessoal. Eu, de minha parte, acho que é mais uma energia do coração que flui, não do corpo", afirma. É essa garota francesa romântica, e ultramelódica, que vai dar o seu recado nesta temporada.

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