Caretice

Sou tão careta que ainda uso o termo “careta”. Nos últimos 50 anos, minha caretice se manifestou principalmente numa absoluta indiferença pelo rock. Não deveria ser assim, porque vi e ouvi o “rock” nascer. Estava nos Estados Unidos quando as primeiras músicas do “rhythm and blues”, até então feitas por negros exclusivamente para negros, começaram a ser produzidas por brancos para brancos, com o nome de “rock’n’roll”. Apareceram as primeiras bandas brancas da nova música, como a de Bill Haley e seus Cometas, e não estava longe o surgimento de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e outros. Aconteceu com o “rhythm and blues” uma usurpação parecida com a que acontecera com o jazz. Nos anos 20 e 30, já havia grandes músicos de jazz como Louis Armstrong, tocando para negros e brancos, mas o título de “Rei do Jazz” foi dado a Paul Whiteman, branco como seu nome, que liderava uma banda branca como ele. Na Inglaterra outro estilo antigo, chamado “skiffle”, americano de nascença, mas adotado pelos ingleses, incorporou o “rock” e deu origem aos Beatles. Que eu acompanhei até a dissolução do grupo, quando, por alguma razão, decidi que meu interesse pelo rock também se dissolvia. Claro que meu gosto pelo jazz, pela música popular brasileira e pela música erudita influenciou a rejeição. E pelo entusiasmo do público em eventos como esse Rock in Rio, imagino o que perdi desprezando o rock nesses anos todos. Mas o que fazer? Caretice não se explica.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 02h00

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A grande novidade prometida pela Nasa era, afinal, a presença de água líquida salobra em Marte. O que não deixou de ser um anticlímax. Não sei o que eu esperava, mas as especulações sobre o que teria sido encontrado se multiplicavam. As sondas mandadas ao planeta vermelho teriam fotografado seres vivos rondando-as, chutando seus pneus e entortando suas antenas. Teriam sido descobertos vestígios de uma antiga civilização que ocupara o planeta num passado remoto, inclusive as ruínas de um McDonald’s carcomidas pelo vento solar. Etc. Mas não: a novidade, nada espetacular, era a água. O que deve nos animar na presença de água em Marte é a possibilidade de colonizá-lo, mandando para lá famílias inteiras, como as que colonizaram o Novo Mundo num passado não tão remoto. Uma viagem para Marte levaria nove meses, seria uma aventura inédita na experiência humana. Mas aí você começa a imaginar as agruras da viagem. Nove meses, as famílias apertadas numa cápsula espacial, e as crianças perguntando a toda hora:

- Nós já chegamos?

Não me animei. 

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