Carequinha, o palhaço que nasceu no circo

George Savallas nasceu em 1915, em Rio Bonito, no Grande Rio. Nasceu, de fato, no circo - sua mãe, a equilibrista Elisa Savallas, andava na corda bamba quando sentiu as primeiras dores do parto. Ela deixou o arame com dificuldade e, sob a lona do Circo Peruano, deu à luz o filho. Cinco anos mais tarde, o garotinho já encarnava, pela primeira vez, a figura que viria a ser o mais famoso palhaço brasileiro. ?Eu tinha cinco anos quando meu padrasto colocou uma careca na minha cabeça. ?Você vai ser palhaço?, ele disse. Depois dali não parei mais. Acho que não sou o melhor palhaço do Brasil. Mas sou o mais querido?, disse ele, em entrevista ao Estado, em dezembro de 2001.Carequinha deu vida ao primeiro programa da primeira emissora de TV brasileira, o Circo Bombril, em 1951. O cenário era um picadeiro, com arquibancadas em volta. O ?respeitável público? era composto por crianças que moravam na vizinhança. Elas participavam de brincadeiras, mais tarde copiadas por Xuxa e Angélica.Foi nessa época que ele inventou o primeiro bordão: ?Tá certo ou não tá, garotada??. Muitos surgiriam depois - ?o bom menino não faz xixi na cama/o bom menino não faz malcriação?, ?ai ai ai carrapato não tem pai?, ?chegou a hora de apagar a velinha?. Ele foi pioneiro também na técnica de criar o nariz vermelho que se popularizou como símbolo do palhaço, já na fase do Circo do Carequinha. Carequinha ouviu de um menino um conselho para usar chiclete no lugar da bola de plástico - ?chiclete cola tudo?, disse o garoto. Comprou oito Ping-pongs sabor hortelã e deu para crianças mascarem. ?Depois, é só lavar, moldar e pintar. Dura cinco meses?, explicou, na entrevista que deu ao Estado. Na ocasião, Carequinha disse que a figura principal do circo havia mudado. ?O palhaço tem hoje papel secundário, virou distração entre os números circenses?, afirmou. Mesmo assim, ele não desistia. Tanto que já preparava o neto Iago, ainda criança, para sucedê-lo. O menino se apresentou no ano passado vestido de palhaço Gabiroba, na festa que a prefeitura de São Gonçalo preparou para celebrar os 90 anos do avô. Carequinha, aquele que nasceu com o dom de ser palhaçoO último ?palhaço típico, aquele que nascia com o dom?, morreu. George Savallas, o Carequinha, acreditava que era o único palhaço desta linhagem sobrevivente. Ele teve morte súbita, aos 91 anos, provavelmente em decorrência de problemas cardíacos, enquanto dormia, nesta madrugada. Desde os 7 anos Carequinha morava em São Gonçalo, no Grande Rio, que decretou ponto facultativo e luto de três dias. Carequinha foi vestido com o mesmo terno com o qual se apresentava no circo - do jeito que desejava.O artista tinha problemas de saúde havia alguns anos. Em 2005, uma pneumonia dupla o deixou na UTI por 28 dias. Na noite de terça-feira, sentiu dores no peito, mas decidiu ir ao médico somente ontem de manhã, contou seu cardiologista Leandro Pereira de Souza.?Ele trabalhava mesmo se sentindo mal. Quando foi procurar ajuda, a doença já estava muito avançada?, disse o médico. ?Carequinha ficou entre a vida e a morte, lutou e, aos 90 anos, venceu a morte. Era muito forte.? O corpo foi encontrado nesta quarta-feira às 6 horas, na cama, pela família. O velório, no Centro Cultural Joaquim Lavoura, em São Gonçalo, foi providenciado pela prefeitura, que pagaria também o enterro, no cemitério São Miguel. Wellington Gomes, de 59 anos, um de seus cinco filhos (ele tinha quatro netos e três bisnetos), contou que Carequinha pegara no sono, na noite de terça-feira, vendo TV, como de costume.?Ainda voltei ao quarto à meia-noite, para desligar o aparelho?, lembrou. Eupídea, casada com Savallas havia seis décadas, sofre do mal de Alzheimer e ainda não assimilou a morte. O velório foi acompanhado por fãs de todas as gerações - afinal, Carequinha tinha 85 anos de carreira. Na fila, havia meninos de 8 e senhoras de 60 anos. A menina Natasha Lourenço, de 13, estava no centro cultural para fazer um trabalho escolar e se surpreendeu ao saber que o palhaço estava dentro do caixão. ?Fiquei triste, levei um susto. Meu pai me levou aos shows, tirei fotos com ele?, contou. ?Ele era muito bobão, todo mundo ria. Até meu pai.?Carequinha se apresentou pela última vez no dia 27, durante a Semana Nacional do Circo. Já estava bem debilitado, como lembrou a nora Cristiane Gomes, mulher de seu filho Tairone. ?Ele vinha muito ruinzinho. A única preocupação era os shows. Sempre dizia: ?tenho que ir, tenho que ir??.

Agencia Estado,

05 de abril de 2006 | 13h32

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