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Cárcere privado

Os minutos iam passando, eu queria ir embora e Dona Jacinta não dava sinal de trégua

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2018 | 04h00

Dona Jacinta, uma das nossas queridas vizinhas do prédio, é a melhor cliente do supermercado da rua. Não importa a que horas eu vá fazer as minhas compras, Dona Jacinta sempre estará lá. Ontem, eram oito e meia da noite, fim de expediente, quando cheguei no supermercado para buscar três coisinhas para casa e os ingredientes do bolo de milho que decidi fazer, por ser uma das únicas quatro coisas que eu tenho capacidade para fazer na cozinha, sem provocar incêndio ou outras desgraças.

Logo que entrei, Dona Jacinta me pegou na frente da seção dos ovos. Eu sorri, dei um beijinho, perguntei se tudo estava bem e ela, depois de se queixar do tempo, dos preços dos produtos e da articulação do joelho, começou um discurso acerca de tudo o que ia mal nas obras do prédio.

Eu concordei com tudo, baseada nos 22% do que entendo do que ela fala. Ela dizia coisas como “purc aquil nãoshtá nadabaim nadanadabaim shtátudo abazar azáguas dustlhados nminhcasadbánho”. E eu só no “tem razão, tem razão Dona Jacinta, é um problema”.

Os minutos iam passando, eu queria fazer xixi, queria ir embora, queria meu sofá e dona Jacinta não dava sinal de trégua. Oito e trinta e oito. Oito e quarenta e três. Eu comecei a virar o tronco levemente, como quem dizia sutilmente que precisava ir. Oito e quarenta e nove. “Mas fique tranquila, Dona Jacinta, nós vamos tomar conta de tudo isso... olha só! Quase nove da noite! Me desculpe, preciso correr aqui que o Filipe está me esperando para jantar!”

Dona Jacinta ainda me segurou por mais uns três minutos naquele aflitivo cárcere privado no Continente Bom Dia, até que finalmente eu escapo. Fujo para a gôndola mais distante dos ovos. Começo a pegar os ingredientes do bolo, correndo como se estivesse naquele programa Supermarket, que eu assistia quando chegava da escola em 1996.

Pego as latas de milho. Vou lentamente fazendo a curva para o corredor do fermento e da farinha, como um gato sorrateiro. Dona Jacinta está lá, escolhendo um pacote de farinha de rosca. Volto para trás abruptamente. Me vejo como uma espécie de 007– Fugindo do Perigo em Lisboa. Volto para pegar os ovos. Me aproximo devagar do corredor do coco ralado. A barra está limpa. Pego dois pacotinhos de coco. Falta só a manteiga. Chego nos refrigerados. Dona Jacinta está plantada bem em frente às manteigas. Não vai dar.

Fico enrolando no corredor dos produtos de higiene. Acabo até pegando uns discos de algodão para tirar maquiagem e um sabão infantil neutro que não arde nos olhos que estava com um delicioso desconto de 20%. Estico o pescoço. Ela ainda está lá, olhando minuciosamente manteiga por manteiga, quase como uma perita alimentar. Já são nove da noite, Jesus Cristo. Mais 3 minutos se passam, aguardo na peixaria. Dona Jacinta avança lentamente rumo aos iogurtes. Eu, ousada, vou atrás, tentando não fazer barulho e estico o braço rapidamente na direção da Mimosa Com Sal, quando Dona Jacinta vira-se para trás e diz “ohhhhh masá mnina aindashtácá!”.

Meu coração acelera, já são 40 minutos no supermercado, eu quero chorar. Ela vai me pegar outra vez. Me ajuda Deus, me ajuda Deus. Respiro fundo. Estou decidida, vou contornar a situação. Num ato de bravura e ousadia, vou em direção a ela e, sem contexto nenhum, tasco um beijo na testa de Dona Jacinta. Ela fica chocadíssima e emudece. Eu nem posso acreditar. Funcionou. Saio andando e digo “beijinho Dona Jacinta, bom descanso!”

21h09. Alforriada por um beijo. Chega até a ser bonito. Não sei bem o que ela vai dizer acerca desses episódios para as nossas outras vizinhas quando forem tomar café na Pastelaria Vontadinhas. Talvez diga que a miúda brasileira não regula bem da carola. Não sei, mas que deu certo, deu. Graças a Deus e aos beijos, 21h15 estava em casa, sã e salva no sofá.

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