Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Carcarah conta sobre o assalto em teatro da Pça Roosevelt

Ilustrador levou 3 tiros na perna ao tentar ajudar o dramaturgo Mario Bortolotto que reagiu à ação dos ladrões

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

08 de dezembro de 2009 | 19h45

Depois de ter tido alta do Hospital Sirio Libanês, onde estava internado desde a madrugada de sábado, quando levou três tiros na perna ao tentar ajudar o dramaturgo Mario Bortolotto que reagira a um assalto no bar do Espaço dos Parlapatões, na Praça Roosevelt, o ilustrador Carcarah, como é conhecido Henrique Figueiroa, fala ao Estado sobre a noite o incidente.

 

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"Lembro de tudo. Foi uma covardia", comenta ao relembrar o assalto feito por quatro homens numa Parati Preta, até agora não capturados. "Eu já estou recuperado. Meio manco, dói ainda, mas está tudo bem. A bala só atingiu músculos. A preocupação agora é com a recuperação do Mario."

 

Na manhã de ontem Carcarah, autor do cartaz da peça Brutal, de Bortolotto, cuja apresentação nos Parlapatões tinha terminado cerca de 2 horas da madrugada, prestou depoimento na delegacia de Homicídios (Rua Brigadeiro Tobias, 47). Um dos tiros atingiu Carcarah no joelho e percorreu toda coxa chegando até a cintura, o que parece comprovar o seu testemunho de que o atirador estava deitado no momento do disparo. "Ele atirou em mim do chão."

 

Carcarah dividia uma mesa do bar já fechado, por volta das 5h30 da manhã, com as atrizes Maria Manoella e Marta Nowil. "Um sujeito anunciou o assalto - 'vai dando o celular' - e agarrou no braço de Maria Manoella que pediu para ele soltá-la. Eu empurrei o cara, ele ameaçou mostrar uma arma, mas vi que era blefe. Nisso, um outro bateu com o cabo do revólver na cabeça da atriz Guta Ruiz", conta.

 

"O Mário levantou de braços abertos, acho que queria proteger todo mundo, e disse: você não vai assaltar ninguém aqui. E partiu para cima do cara. Ele passou os braços por baixo do sovaco do assaltante, como num abraço. Os braços do cara ficaram nas costas do Bortolotto e com a arma na mão. Eu fui para cima, mas meio de lado, porque eu estava atrás do Bortolotto, o cara podia levantar o braço e atirar em mim. Aí eles caíram no chão, na porta, perto da bilheteria. Foi aí que o sujeito atirou em mim. Na delegacia falaram que tinha oito cartuchos. Eu senti um cheiro de pólvora, senti os tiros, vi a calça furada, mas achei que era chumbinho, porque não doía na hora. O sujeito conseguiu levantar e eu caí. Deitado no chão perguntei ao Bortolotto se ele tinha levado tiro e ele disse que sim, no ombro e na barriga. Ele atirou no Bortolotto deitado, embolado no chão, tanto que um dos tiros entrou pelo sovaco e varou todo o corpo dele."

 

Carcarah não lembra do assaltante ter voltado para dar mais um tiro, o que pegou no pescoço no dramaturgo. "Mas as imagens da câmera de segurança, já divulgadas na Internet, mostram isso, que ele voltou para atirar na cabeça, dar o tiro fatal", diz. "Depois que os assaltantes saíram começou uma gritaria desvairada, todo mundo pedia para chamar ambulância, polícia. Logo chegou a polícia e pedimos para levar o Bortolotto primeiro, porque ele já estava inconsciente. Eu pedi água a Manoella porque minha boca começou a ficar seca, deu vontade de vomitar, sentia muita dor, e achei que os tiros tivessem atingido o fêmur. Entrei no carro da Marta (Nowil, atriz da peça Brutal) e pedi para me levar para o Hospital Sírio Libanês, porque tenho plano de saúde. O Bortolotto foi para a Santa Casa, felizmente, porque ali tinha uma equipe muito boa", comenta.

 

"Não concordo quando as pessoas criticam a reação de Bortolotto. Se ele tivesse amarelado, talvez o sujeito tivesse atirado em outra pessoa, atirado assim mesmo, e a gente ia ficar culpado de ter sido passivo. Não dá para saber. Acho que as mesinhas e cadeiras dos bares não deveriam ter saído da calçada da Roosevelt. Deveria haver um posto da polícia 24 horas na praça. E a reforma tem de sair logo. Aquele lugar tem vocação para se tornar um Boulevard movimentado."

 

Além de Carcarah, hoje pela manhã prestaram depoimento as atrizes Marta Nowil, Maria Manoella e Guta Ruiz. "Por enquanto não há pistas dos assaltantes. Ficou comprovado que eram quatro e fugiram numa Parati Preta. Segundo um perito em balística presente ao depoimento a munição estava muito velha", diz Marta Nowil.

 

Na sexta-feira a peça Brutal será apresentada à meia-noite. "Havíamos pensado em não fazer, mas mudamos de ideia porque sabemos que o Mario iria gostar." Toda a renda da bilheteria de sexta será revertida para a família de Mario Bortolotto. Sua ex-mulher Christiane e sua filha Isabela, que moram em Londrina, estão em São Paulo desde sábado.

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