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Barack sorriu mais de uma vez e Hillary Clinton, insultada e derrotada por Trump apesar de ter mais votos, sorriu quase o tempo todo

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2017 | 02h00

A nobreza obriga, e o protocolo também. Quatro ex-presidentes dos Estados Unidos foram obrigados a manter uma pose digna, ou uma cara de “não é comigo”, enquanto Trump discursava na sua posse e culpava a decadência da América, implicitamente, nos quatro: Jimmy Carter, George Bush, Bill Clinton e Barack Obama. A única cara apropriadamente fechada no palanque era a de Michelle Obama. Barack sorriu mais de uma vez e Hillary Clinton, insultada e derrotada por Trump apesar de ter mais votos, sorriu quase o tempo todo. O lugar dela - se a hipocrisia não obrigasse - era na marcha das mulheres contra Trump, no dia seguinte. Trump condenou toda a classe política americana na sua oratória neoisolacionista e prometeu devolver todo o poder ao povo, ele e seu gabinete de multimilionários. Está em guerra aberta contra a imprensa, contra mulheres mobilizadas, contra ambientalistas e, literalmente, contra meio mundo. Enfim, apertem os cintos. Estamos entrando numa zona de turbulência.

Surpreendente, a presença do Jimmy Carter entre os ex-presidentes na cerimônia. Pelo menos para mim, que o julgava morto. Carter foi o único presidente americano a receber o Nobel da Paz depois de deixar a presidência, pela sua atividade em defesa dos direitos humanos. E foi o último a ter um caráter inatacável, embora entrasse na História como um presidente fraco, apenas o precursor do Ronald Reagan. Na posse do Trump, Carter parecia estar longe, provavelmente pensando na sua plantação de amendoim.

Das coincidências. No filme La La Land tem uma cena em que a mocinha, Mia, faz um teste para entrar numa produção e conta (ou canta) o que aconteceu com uma tia, que caiu no rio Sena. Aquilo me lembrou alguma coisa, que logo descobri o que era. Em 2009, por aí, publiquei uma história nos jornais Zero Hora e O Estado de S.Paulo em que uma tia caía no Sena. Na minha história, a sobrinha procurava a tia num asilo para saber detalhes do acontecido, anos antes - e a tia não se lembrava da queda no Sena. Mal se lembrava de ter estado em Paris. A sobrinha então inventava uma história para contar para as amigas. A tia estava dançando ao luar num parapeito da Pont Neuf com um nobre húngaro, os dois tomando champanhe e... acontecera. Os dois tinham caído no Sena.

Duas tias caindo no mesmo rio é coincidência. Se mais uma tia cair no Sena, já é síndrome. 

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