Cara de um, focinho de outro

Parte da minha vida profissional se passou no estrangeiro. Nos simpósios internacionais, acostumei-me a perceber o modo como a América Hispânica era sobreposta à América Latina, obrigando a língua portuguesa e a cultura brasileira a se afirmarem solitariamente. Talentoso discípulo de Octavio Paz, Gustavo Krause repete a identidade equivocada no prefácio de Ficando para Trás (Rocco; tradução de Nivaldo Montingelli Jr; 336 págs.; R$ 54), coletânea de ensaios sobre o desenvolvimento sustentável, organizada por Francis Fukuyama em 2005 e que agora sai por aqui, cujo subtítulo diz o essencial: "Explicando a crescente distância entre a América Latina e os Estados Unidos." Krause assevera que a América Latina está "unida por uma língua, uma história, um conjunto de tradições e pela cultura".

Silviano Santiago, silviano.santigo@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Hoje, as novas gerações desfazem o déficit identitário. Alavancados pela esperança do Mercosul, os jovens pesquisadores universitários hispânicos e brasileiros transitam com conhecimento pelas duas línguas europeias nacionais e as várias indígenas e africanas, pelas histórias locais concorrentes, pelos conjuntos distintos de tradições, perfazendo, aí sim, uma única história, em muito semelhante à dos Estados Unidos, onde são as diferenças que saem em busca da afirmação identitária. Isso significa que as "fronteiras políticas, as disputas incontáveis, as barreiras geográficas e os eventos aleatórios" estejam sendo minimizados, embora ainda existam e pipoquem. Este é, por exemplo, o caso do contencioso entre Colômbia e Venezuela.

Ao tomar como referência o discurso expositivo, o crítico de formação literária percebe como a incontestável erudição dos ensaístas se vale do modo descritivo para encaminhar ao leitor, no tocante ao ideal de desenvolvimento sustentável, dados sobre os extremos opostos dos Estados Unidos e da América Latina. Desenvolvimento é definido como forma de progresso material a ser alcançado "com políticas macroeconômicas prudentes", de que é exemplo o governo dos presidentes Lula e Kirchner. O objetivo do modo descritivo é o de tornar evidente uma crescente "lacuna" entre as duas regiões, a ser preenchida pelo discurso científico consensual da maioria dos expositores. Pela monocronia, o saber científico ideologiza o teor das competentes contribuições acadêmicas que, se aplicadas ao pé da letra, tornariam perfectível o desempenho latino. Os fatores que "não explicam a lacuna" são imputados a estudiosos divergentes, como o argentino Tulio Halperin Donghi, ou ausentes ilustres, como o americano Jeffrey Sachs.

Nos ensaios de fundo econômico, os números e os dados estatísticos, que dizem mentir menos que as palavras, reforçam o já convincente modo descritivo erudito, emprestando-lhe características de terreno minado pelo parti pris propício à tese única, a da distância crescente entre o sucesso ao Norte e o fracasso ao Sul, cujo intuito se esclarece na conclusão. Nesta, com a ajuda do melhor estilo leninista, se ousa propor aos latino-americanos "O que fazer". O receituário da coletânea pressupõe boas políticas econômicas, reformas institucionais, atenção à política (ou ao populismo, caso se aclare o subtexto) e, finalmente, políticas sociais inteligentes.

As políticas macroeconômicas responsáveis, alerta Fukuyama, são o melhor antídoto contra o populismo que apenas "oferece soluções de curto prazo que na verdade pioram as perspectivas a longo prazo dos pobres".

Não teria sido aconselhável que o modo descritivo adotado pelos expositores perdesse o equilíbrio herdado do Consenso de Washington (1990), para acolher e analisar de modo contrastivo os extremos que, depois da implosão das torres gêmeas e da guerra no Iraque, coexistem nas duas regiões do subcontinente americano? Por que é que, quando se fala da escravidão africana no subcontinente, se minimizam as alusões ao racismo na América do Norte e se maximizam os horrores do regime como "defeito de crescimento" na América Latina?

Por serem pouco nuançados em matéria de contrastes, a maioria dos ensaios de Ficando para Trás se apresenta como o avesso de filmes também tendenciosos e monocromáticos, como Dogville (2003) e Manderlay (2005), do dinamarquês Lars Van Trier. Aprende-se com a cara de um, se se sabe que ela é o focinho dum outro.

Se a metodologia calcada em contrastes deve ser, pois, elogiada, já que conduz o leitor-aprendiz ao pleno conhecimento das diferenças que o constituem sem que delas se tivesse dado conta, deve ser, no entanto, relativizada caso o encaminhe para a ideia de modelo superior de desenvolvimento, a ser imitado. Somos mais bem construídos por pedagogia que incentiva a rejeição a modelo dado como consensual por uma das partes. Pela atitude crítica precoce seremos, na idade madura, melhores construtores do saber e da ação democráticos. A estrita obediência a qualquer modelo dado como superior inibe a experimentação e a criação que existem de modo latente em todo ser ou grupo humano carente de aperfeiçoamento. Durante as guerras da Independência levadas a cabo por Simón Bolívar, o pensador venezuelano Simón Rodríguez (1769-1852) escreveu nosso futuro: "Ou inventamos ou erramos."

O organizador do volume nos leva a descobrir que a Argentina é a nação da América Latina que "tem menos desculpas para ser subdesenvolvida". O adeus ao pensamento tendencioso dos competentes analistas de Ficando para Trás é dado pelo elenco das razões positivas que não justificam o malogro dos vizinhos. Aquele país está em zona temperada (e não tropical), tem recursos agrícolas abundantes e acesso ao comércio internacional. Não começou como império escravagista e por isso tem poucos conflitos étnicos. Os imigrantes são quase todos europeus "e não muito diferentes dos que se estabeleceram na América do Norte". Trouxeram consigo instituições europeias. A receita é boa; o bolo, no entanto, solou no forno apenas morno dos pampas.

"Don"t cry for me Argentina!", canta Evita Perón com a voz de Madonna.

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