Caprichos refinados de caine

CD foge de esquema jazzístico tradicional e combina energia rítmica com técnica impecável

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Aos 54 anos, o pianista norte-americano Uri Caine é um daqueles formidáveis talentos musicais inqualificáveis. Ou melhor, inclassificáveis. Nasceu como Janus, com duas cabeças. De um lado, firmou-se como um dos grandes pianistas de jazz moderno, tocando inicialmente com Philly Joe Jones e Hank Mobley e nas últimas três décadas com Don Byron, Dave Douglas, Sam Rivers e Barry Altschul, entre outros. Ao mesmo tempo, estudou composição com dois grandes criadores contemporâneos, George Rochberg e sobretudo George Crumb.

O resultado foi um somatório muito pessoal, que se reflete o tempo todo em sua dupla vida musical. De um lado, mantém seu trio jazzístico BedRock; e de outro aventura-se na dita grande música - do passado e do presente. A pequena gravadora alemã Winter & Winter - uma espécie de irmã gêmea mais radical e experimental que a ECM - lançou 21 CDs de Caine nos últimos 18 anos. A marca que o tornou conhecido foi a deglutição originalíssima da música de Bach, Mozart, Beethoven, Mahler, Verdi e Wagner, vertendo-os nas mais variadas linguagens contemporâneas - do pop ao jazz, da música eletrônica à MPB (sim, ele conhece bem a música brasileira).  

 

 

 

 

Áudio som

Ouça trechos de Capricho nº8     

 

 

 

Pois neste início de 2011 Caine dá um segundo salto que pode representar uma nova etapa em sua carreira. No CD Doze Caprichos, recém-lançado pela Winter & Winter, Caine combina a música escrita com o improviso. Foge, porém, do esquema jazzístico tradicional de improvisar sobre temas estabelecidos, sejam eles de música popular, as Variações Goldberg de Bach ou as Diabelli de Beethoven.

Compôs uma série de 12 caprichos, forma livre inspirada nos caprichos para violino solo de Paganini, que privilegia extremas dificuldades técnicas de execução. Só que Caine escreveu para quarteto. E improvisa, ao piano, sobre as estruturas escritas para as cordas.

O resultado poderia ser pífio, já que a ideia inicial era o quarteto gravar primeiro a parte escrita, e só depois Caine entraria no estúdio para improvisar sobre o tape. Mas Irvine Arditti, o líder do mais importante quarteto de cordas especializado em músicas contemporâneas, insistiu em gravar como se os cinco estivessem em situação de concerto. "Precisamos do seu impulso, da energia rítmica do seu toque, para compreender o que estamos interpretando", disse-lhe. "Só posso agradecer a sugestão", revelou Caine em recente entrevista. "Desse jeito pareceu uma gravação de jazz. Começamos a tocar e gravamos tudo em um dia e meio. Foi muito espontâneo."

Os 24 Caprichos, compostos como opus 1 por Paganini em 1802, foram dedicados "aos artistas", por causa das dificuldades técnicas sobrenaturais. Caine também poderia dedicar os seus "aos artistas", tamanha é a exigência técnica na escrita.

O que mais provoca admiração, no entanto, é a perfeita integração entre a música criada no instante pelo piano de Caine e a vibrante execução de Arditti. Uma figura básica paira pelo conjunto inteiro: é a dos seis quartetos de Bela Bartók. E não por acaso, já que, como Bartók, Caine também transita entre o tonal e o atonal como se estivesse se equilibrando numa corda bamba sem rede.

Bartók. O primeiro capricho lembra momentos do quarteto n.º 4 de Bartók. O segundo começa pontilhista, weberniano, recua para atmosfera pós-romântica saturada e descamba no fim para belo improviso do piano de Caine. O terceiro dá a impressão de uma música country logo nos primeiros compassos, mas em seguida adensa a textura. O sexto capricho é de impressionante veia lírica, característica que Caine não tem vergonha de assumir. No décimo primeiro há ecos românticos contrastando com um discurso moderno nas cordas que o aproxima da música contemporânea. E no oitavo, contrapontos canônicos, pitadas contemporâneas e bastante swing.

"Alguns", acrescenta Caine, "podem lembrar outros compositores, sobretudo os mais tonais, porque tento contrastar entre música muito e pouco tonal, entre música muito rítmica e música com uma sensação rítmica de final aberto, entre música mais jazzística e outra que nada tem a ver com isso."

Diz que isso flui em seu toque no momento da execução; e uma inflexão diferente pode mudar seu rumo. Como, aliás, Bartók, na última aparição pública como pianista, com a Filarmônica de NY, em 1943: o percussionista errou uma nota no concerto para dois pianos e o compositor abandonou a partitura e improvisou por alguns momentos. O erro desencadeou-lhe nova ideia musical que ele quis explorar até o fim, deixando a orquestra e o maestro Fritz Reiner aterrorizados; depois voltou ao texto, para alívio geral. Caine provoca esse mesmo espanto - e com música de refinada qualidade.

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