Capricho e relaxo

Toda Poesia (Companhia das Letras) de Paulo Leminski abrange os livros publicados até agora, mais uma seção dedicada aos esparsos. Reunir toda poesia de um autor como Leminski é um esforço que repercute de muitas maneiras. Mais do que uma sacada editorial, é a justa possibilidade da obra poética se autodefender. Há autores em que suas obras sempre correrão o "risco Rimbaud", uma espécie de santificação da personalidade que pode chegar antes da efetiva leitura de sua poesia. Por isso, são incompreensíveis os motivos da demora de quase três décadas desta publicação. É questão de disponibilizar toda a poesia ao leitor paralelamente à produção crítica, que normalmente começa a se avolumar vertiginosamente após a morte de um poeta, especialmente deste poeta. O argentino Néstor Perlongher, tão polêmico e criativo quanto Leminski, teve sua poesia reunida dez anos após a sua morte.

Ricardo Corona,

16 Fevereiro 2013 | 00h57

Organizada por Alice Ruiz, a edição é ultracriteriosa, afetiva e preenche satisfatoriamente essa lacuna. Traz o mérito de saber que reunir não é amontoar. A sensação é de que agora é a vez da poesia, a partir de dois vetores principais: a fala uníssona desta poesia reunida, fala principal, seguida de apêndice com enxuta seleção de textos publicados nas edições anteriores, a saber: Haroldo de Campos, Caetano Veloso, Leyla Perrone-Moisés, Alice Ruiz e Wilson Bueno. Apenas dois foram escritos especialmente para a edição, um de Alice Ruiz e outro de José Miguel Wisnik.

Toda poesia é fiel ao design dos poemas, detalhe importante, sobretudo em se tratando desse autor que pensava acima das categorizações a relação palavra e imagem, poesia e música, ficção e história, arte e vida, prosa e poesia. Por exemplo, conforme anota Alice Ruiz, o procedimento de fotografar e ampliar o poema escrito na tipologia da máquina Remington 40 e assim estampá-lo na página. Isto para o livro não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase, um presente dos amigos fotógrafos Nego Miranda, Dico Kremer e Márcio Santos. Traz ainda em tipologia especial a seção Ideolágrimas, de Caprichos & Relaxos, feito o poema (e foto-performance) Kami Quase. Faltou apenas o nome Leminski (poema-logotipo?), escrito na folha de rosto original na tipologia usada pelo sindicato polonês Solidariedade do então líder operário pop Lech Walesa (é a imagem que ilustra este artigo). Em minha opinião, é um poema.

O fato é que Leminski atuou em várias áreas e inovou nos modos de fazer a poesia transcender seus âmbitos previsíveis. Dessas hibridações, a menos estudada é a da relação corpo e poesia e, curiosamente, talvez seja, para as novas gerações de leitores, a faceta mais instigante desse poeta que não à toa foi leitor-tradutor de Sol e Aço, ensaio poético em que Yukio Mishima apresenta sua reflexão sobre corpo e palavra, gesto e escrita.

O autor do verso "quero sentir o hálito das multidões" fez poesia para ser compartilhada, lida e comentada por um número maior de leitores. Isso não significa que Paulo Leminski tenha sido autor que facilitou as coisas. Não se furtava de ironizar e, portanto, neutralizar os vencedores: "quero a vitória / do time de várzea / valente / covarde / a derrota / do campeão / 5 x 0 / em seu próprio chão / circo / dentro / do pão" (não fosse isso e era menos...). Colocar a poesia na esfera do leitor, além de gesto consciente, foi generoso e realizado sem concessões. Leminski soube trabalhar com o que Ferlinghetti cunhou de "superfície de comunicação" e Ginsberg, de "a primeira ideia, a melhor". Mas Leminski fez isso à maneira dele, assim como soube se aproximar da poesia concreta sem se transformar em poeta concreto. Esse princípio de comunicação que une poesia e invenção é uma faísca rara em que o leitor é, talvez, o mais beneficiado. Sua poesia é popular por mérito dessa comunicabilidade, um equilíbrio certeiro entre capricho e relaxo, erudição e desbunde. Eis a façanha de um "punk parnasiano", um "dadaísta clássico", conforme se autodefinia, com humor.

RICARDO CORONA É POETA, AUTOR DE ¿AHN? (EDITORA DA CASA) E CURARE (ILUMINURAS)

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