Capítulo das águas

Quando voltava de Poços de Caldas para São Paulo, dei uma parada em Águas da Prata e acabei fazendo uma breve viagem ao passado.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2010 | 00h00

Não fazia frio, como naquele inverno paulista de 1961, quando fiquei impressionado com as serras que cercam a estância hidromineral. Era uma paisagem exótica demais para um menino de Manaus. O rio que atravessava a pequena cidade, paralelo aos trilhos da estrada de ferro - o mesmo rio que agora vejo com outro olhar - era, para mim, um córrego, ou um simples igarapé. Mas as serras, sim, eram colossais, em contraste com as colinas suaves da minha cidade Manaus. O Planalto das Guianas e o Pico da Neblina ainda estavam longe do meu horizonte de curumim.

Mal desembarcamos em Águas da Prata, perguntei a minha mãe o que íamos fazer ali.

"Vamos beber água e respirar o ar da montanha", ela disse.

"Viajamos 5 horas de avião e mais 4 de ônibus para beber água?"

"É uma água milagrosa, rica em magnésio e bicarbonato. Vai fazer bem para o teu fígado. Tu sabes o que o médico disse."

Doutor Almada... Grande desalmado, isso sim. Depois de apalpar minha barriga, ele disse que meu fígado era desproporcional à minha idade; aconselhou que passássemos uma semana naquela estância hidromineral.

Águas da Prata: um nome gracioso de uma cidadezinha povoada de pessoas tristes e bem mais velhas que minha mãe, então uma jovem de trinta e poucos anos. Eram seres de um século de idade, que faziam fila para beber água em copos de plástico.

O hotel São Paulo era vistoso; os quartos, espaçosos, mobiliados com móveis antigos. Havia um salão enorme, iluminado por lustres de cristal pendurados no teto; num dos cantos do salão um piano preto prometia acordes nas noites silenciosas que, na minha lembrança, são fúnebres. Ao andar pelo hotel, vi um pátio interno com uma fonte: a boca aberta de um anjo de pedra que expelia água milagrosa. Quando comprei um sorvete com as moedas catadas no fundo da fonte, levei uma bronca de minha mãe: eu não sabia que as moedas seriam trocadas por promessas?

Tanto não sabia que troquei o dinheiro por um sorvete de morango, uma raridade na Manaus daquela época.

Passamos sete dias bebendo água e comendo pratos inesquecíveis, verdadeiras iguarias, só comparadas ao requinte da comida de hospital. Nós íamos de manhã cedo até uma fonte no outro lado da estação de trem, eu era a única criança na fila dos bebedores, a água que eu engolia em jejum tinha gosto de purgante. Não pensava no meu fígado de gigante Piaimã, e sim na crueldade do clínico Almada, que me privara das brincadeiras nas ruas e praças da minha cidade distante.

Nas férias de julho todo mundo empinava papagaio, as tranças no ar eram batalhas comoventes. E havia os navios estrangeiros que em julho e agosto atracavam no Manaus Harbour, esses navios me fascinavam porque pareciam cidades flutuantes que nos traziam novidades do outro lado da Terra. Meu avô, que me levava para conhecê-los, dizia: "Esse aí veio de Gênova, aquele ali de Marselha, amanhã vai chegar um cruzeiro do Caribe."

E enquanto engolia o purgante prescrito por Almada, sonhava com os transatlânticos e com os balneários de Manaus. Para tentar antecipar nosso regresso ao Norte, bebia água além da conta, dizia a minha mãe que o meu fígado havia diminuído, já era tempo de voltarmos à nossa cidade. Mas ela era uma idólatra do doutor Almada, cumpriu à risca a orientação desse desmancha-prazer, desde então eu o odiei como um político deve odiar seus pares: um ódio figadal, como se diz.

Na manhã do dia 14 de Julho, véspera da nossa volta para São Paulo, eu e minha mãe ouvimos uns gritos. Era um homem que corria como um louco, tentando alcançar uma charrete. Careca, e só de cueca no frio matinal, ele corria e gritava: "Volta aqui, mulher! Volta aqui..."

Não havia mulher na charrete, apenas o cocheiro, que chicoteava o lombo do animal para se livrar do perseguidor. Foi uma cena que divertiu os hóspedes do hotel São Paulo. Mas nem todos: uma senhora se benzeu e depois tapou os olhos para não ver o sujeito quase nu.

Disse a minha mãe que aquele homem lembrava o Bombalá, um dos doidos mais públicos e notáveis de Manaus. Ele marchava à frente da banda da Polícia Militar durante o desfile de 7 de Setembro. Careca, descalço e só de calção, Bombalá era aplaudido pela multidão que agitava bandeirinhas do Brasil. Não gritava por uma mulher, mas regia uma banda militar no dia da Pátria, ele era o mais patriota dos nossos maestros.

Minha mãe concordou: aquele homem de cueca devia ser doido mesmo. Depois ela acrescentou: "Mas andam dizendo por aí que até nosso presidente é doido, filho."

"Jânio é doido?", perguntei.

"Dizem..."

"É doido porque é presidente? Ou é presidente porque é doido?"

Minha mãe me olhou com severidade:

"Cuida do teu fígado, isso sim. Vamos já beber água. É o nosso último dia neste paraíso."

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