Capitu encontra Machado no palco

Ela diz que a peça remete a Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello, pela aproximação temática da busca do personagem para encontrar seu autor. Mas, no caso em questão, a criatura de cara encontra seu criador e num embate de contornos literários tentam ambos conhecer-se sem reservas. Ariclê Perez comemora 35 anos de carreira na pele da "dissimulada" Capitu, do romance Dom Casmurro de Machado de Assis.Escrito pela atriz em parceria com o professor de Literatura da USP, Flávio Aguiar, Criador e Criatura estréia hoje no teatro da Academia Brasileira de Letras do Rio (Projeto Academia Convida), onde vai fazer temporada de dois meses, antes de vir para São Paulo."É um espetáculo de câmara, em que o encontro entre Machado e Capitu se dá em algum lugar da imaginação. Afinal, o palco é um território aberto", diz Ariclê, que no ano passado enveredou pelo caminho da poesia, levando à cena Cecília Meirelles. "Agora, só penso em Machado de Assis", afirma. O convite para escrever o texto partiu da amiga Edla Van Steen, que acabou não podendo assumir a parceria. Estudiosa e apaixonada pela obra de Machado, Ariclê não se arrependeu de ter aceito a empreitada. E ainda angariou parceiros amigos, como Bibi Ferreira, que dirige o "colóquio", e o ator Nélson Xavier, que faz o escritor.Em Criador e Criatura, Ariclê e Aguiar respeitaram o grande mistério da obra - a ambigüidade do fato de Capitu ter traído ou não Bentinho com Escobar -, mas conferiram liberdade poética para definir as linhas mestras do encontro."Capitu quer saber por que foi criada, quer entender melhor a si mesma. Até onde é possível, faço a defesa de Capitu", atesta a atriz. O personagem Machado é um escritor esquivo, que depara com reservas sobre o próprio ciúme, sua epilepsia, sua cor (ele era mulato), a rejeição à madrasta (que era uma mulher muito humilde), seu desejo de ascensão intelectual."Em Dom Casmurro, o alter ego de Machado é a própria Capitu. A ambição dela, embora se trate de uma aspiração social, tem, no entanto, a mesma intensidade da ambição intelectual e espiritual de Machado. Esse é um dos motes do encontro", compara Ariclê. Mas quanto ao ciúme de Bento/Casmurro, Ariclê atribui a característica ao próprio escritor, que costumava exacerbar seu ciúme pela esposa, Carolina. A peça também tem trechos de Memorial de Aires e Memórias Póstumas de Brás Cubas.Aguiar ressalta haver em Dom Casmurro dois conflitos marcantes: o primeiro entre duas personalidades opostas - a decidida mas pobre Capitu e o tímido mas rico Bentinho -, e o segundo, residindo no íntimo do narrador Bentinho, que quer convencer o leitor de que a mulher que ele amou e que o amou era uma traidora. "Eu diria que o romance de Machado tem uma vocação dramática", salienta o professor. "Além disso, aproveitamos os diálogos do romance de um escritor que foi dramaturgo e crítico teatral.""Sobre a criação em conjunto? Só prazer. Flávio é um professor inquieto e brilhante", elogia a atriz, que já foi dirigida pelos grandes diretores de teatro, como Antunes Filho (Peer Gynt, em 1971) e Flavio Rangel (Freud - No Distante País da Alma, em 1985).

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