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Capetas angelicais

Terna, divertida, encantadora – criança é tudo isso, sem deixar de ser também um capetinha

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 03h00

Maldita hora, conta o Nelson, em que a dona da casa lhe propôs tomar um banho. 

Mirtes tinha sido sua colega na faculdade e vivia agora em Paris. Depois de um tempo sem se verem, ele estranhou a metamorfose que havia convertido a moça tímida e conservadora do interior goiano naquele ser loquaz a borbotar modernidades.

Escarrapachada no carpete, baseado e birita entre os dedos, a Mirtes desfiava com fartura de palavrões um torrencial relato autobiográfico. Em minutos soube o Nelson que o ex-bicho do mato tinha incinerado todos os condicionamentos burgueses da sua formação goiano-católica – a ponto de ter planejado e tido uma filha à revelia de um incauto inseminador. Graça de menina, a Carol, 5 anos de idade, espevitada que nem a mãe.

Deve ter sido a cara (de cansaço?) do Nelson que levou a Mirtes a interromper a discurseira: quer tomar um banho? Bem... – hesitou ele, estava ali como visita apenas... A amiga insistiu, qual o problema? 

Conformado, o Nelson já tomava o rumo do banheiro quando a Carol anunciou: 

– Quero tomar banho com o tio!

– Mais inesperada ainda foi a reação da mãe:

– Claro, meu amor!

E agora lá estava o Nelson nu sob o chuveiro e o olhar perscrutador da garotinha, ensaboando-se freneticamente para abreviar a agonia.

– O que é isto, tio? – quis saber a Carol, por pouco não cutucando o objeto de sua curiosidade.

– Isto... isto... – tartamudeou o visitante – ... é o pinto do tio...

– Não, tio! O outro, atrás dele!

– Digamos que faz parte do conjunto – balbuciou o Nelson, encerrando, ainda meio ensaboado, o que foi o banho mais rápido de sua vida.

*

Estava a família inteira na casa da praia quando, num final de tarde, veio a notícia de que a água ia acabar. Craque na gestão de crises, uma das mães montou em minutos um esquema de sucessivos banhos a dois, para agilizar o processo – e de saída mandou um dos meninos se juntar ao tio, já sob o chuveiro. Não tardou a vir de lá o berro:

– Meeeuuu! Mais parece um extintor de incêndio!

*

Esta foi comigo.

Apanhado por uma apendicite quando visitava a família, em Belo Horizonte, fui convalescer na casa de meus pais. E lá estava de cama quando, pela porta aberta, pude ver as três sobrinhas sentadas num degrau da escada, a cochichar, de olho em mim. Só podia ser impressionante o espetáculo daquele tio que nunca tinham visto, pois passara anos em outro país, e quando finalmente apareceu foi para ter a barriga aberta pelo médico. De nada adiantaram as gatimonhas que encenei, tentando simpatia. O trio se fechou ainda mais no cochicheio, antes que, designada pelas primas mais velhas, a Ana Luiza viesse até a porta do quarto onde eu jazia, e ali gritasse, antes de voltar correndo para a escada:

– Tio, a Rachel e a Mariana falaram que você morreu! 

*

Saliente, a Raquel tanto encantava pela graça como criava situações embaraçosas. Certa vez entrou na sala onde a avó recebia uma cunhada, criatura bem-humorada, porém feia, muito feia, minuciosamente feia. Entrou e veio vindo, sem tirar os olhos da visita, ao pé da qual estacionou, para finalmente indagar:

– Tia, você é feia? 

Em outra ocasião, fitou demoradamente o jardineiro que aparava a grama, e então lascou:

– É ruim ser preto?

*

Ele andava pelos 3, 4 anos no dia em que, passando pela roda onde a mãe papeava com as amigas, não pôde controlar a tranca, pela qual os intestinos despacharam estrepitosos gases, em decibéis desproporcionais ao corpinho do emitente. Até ele se assustou:

– Mãe, atrás de mim tá tossindo!

*

Não se sabe de onde o pai tirou a ideia de mostrar ao filho uma radiografia da cabeça, feita na busca de explicação para a dor de cabeça que vinha atormentando o garoto. Queria talvez tranquilizá-lo, provar que estava tudo bem – só não esperava o assustado pasmo com que ele reagiu:

– Dentro da minha cara tem uma caveira?!

*

Num daqueles natais da infância, ela pediu um enxoval de anjo, sem faltar o par de asas de penas brancas verdadeiras. Em vão os pais argumentaram que a vestimenta só teria cabimento em maio, o mês das Coroações (talvez seja preciso ter nascido em Ouro Preto, muitas décadas atrás, para saber como era a encenação em que meninas vestidas de anjos escalavam as laterais do altar para adornar a Santa com flores e coroa). Longe de se deixar convencer, a criaturinha quis mais: ser conduzida, assim trajada, pelas ruas da cidade, no calorão de dezembro. Dotada agora de asas, quis saber, mal pôs o pé na rua:

– A gente vai a pé ou vai voando?

*

E essa agora?, afligiu-se o avô, ao perceber que na direção deles vinha vindo um anão. Escaldado, tentou evitar a situação constrangedora que o netinho, na espontaneidade de seus 5 anos, por certo ia criar assim que visse, cada vez mais próximo, o seu primeiro ser humano verticalmente prejudicado. Fez o que pôde para distrair-lhe a atenção, mas quem disse que o diabinho se deixou seduzir pela vitrine de brinquedos, se diante de si havia coisa mais surpreendente? Seja o que Deus quiser, murmurou para dentro o avô, no momento em que, cruzando com o anão, o menino, em voz altíssima, liberou o espanto:

– Vô!!! Cê viu aquele adultinho?

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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