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Caperucita, la más pequeña de mis amigas

Aquele poema me rendeu um dez na primeira prova de espanhol que fiz

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2016 | 02h00

Segunda-feira, nenhum compromisso. Nada pela frente. Ressaca, ecos do aniversário de 80 anos, domingo passado. Como enfrentar o vazio? O problema de quem está sempre ocupado é este, quando nada há para fazer, perdemos o equilíbrio, viramos em volta, abrimos um livro e fechamos, ligamos e desligamos a tevê. Enfrentar o ócio é uma dificuldade. Como há gente que vive na ociosidade por anos e anos e não se deprime nem se mata nem se atira de um prédio? Aí me lembrei do barbeiro. Cortar o cabelo era uma boa. Aquele plec-plec da tesoura que me dá sono, as cócegas na cabeça.

Cortado o cabelo, desci a rua Teodoro Sampaio, que tem mil casas de instrumentos musicais e uma dezena de sebos de livros. Entrei no primeiro, o Basques, e fui garimpando. Bati os olhos em um Manual de Español, de Idel Becker. Em perfeitas condições. Seria o mesmo em que estudei no ginásio? Abri, vi os mapas da difusão da língua espanhola. Continuei e confirmei, era este o livro adotado no Instituto de Educação Bento de Abreu de Araraquara. E como confirmei?

Desde a primeira vez que abri este livro, começo dos anos 50, fiquei cabreiro com uma informação do autor: “Enquanto em português existem 17 sons vogais, na língua espanhola há apenas cinco: A, E, I, O, U. Tive duas professoras de espanhol. Uma, a Rosanilce Cendon, mignon e sexy. A outra foi a Isaura Cordioli, que deve ter explicado, mas sempre me ficou uma questão obscura. Onde estavam os outros 12 sons vogais do português? Socorro Maria Helena de Moura Neves.

Isaura era loira para ruiva, belo corpo e pernas que definíamos como monumentais, expressão da época. Mulher sexy, severa, disciplinadora, com ela não tinha brincadeira. No ano anterior, Isaura tinha nos ensinado os primeiros princípios de latim, depois nos entregou ao professor Luciano de Freitas.

Ao reconhecer o livro em que estudei, fiquei afoito e virei as páginas. Precisava localizar a história de Caperucita, se estivesse ali, estaria confirmado. Assim cheguei à sétima lição na página 41. Lá está Caperucita, ou Chapeuzinho Vermelho. Com o desenho da menininha despreocupada, carregando sua cesta de flores, olhada gulosamente pelo lobo. Toda a atmosfera daquelas aulas regressou e me envolveu, eu em plena juventude. Lembro-me bem, Isaura determinando que lêssemos: “Caperucita la más pequena/ De mis amigas, ?en donde está? / - Al viejo bosque se fue por leña,/ por leña seca para amasar”. Claro em espanhol havia a interrogação de ponta-cabeça no início da frase que indicava o tom.

Isso me conduziu a outro momento. Ao final dos anos 1960, quando escrevia meu romance Zero. Nele usei a interrogação invertida nos diálogos, característica do espanhol, o que causou sensação entre a crítica, disseram que eu trabalhava a linguagem latino-americana. Na verdade, usei porque a minha máquina de escrever, uma Hispano Olivetti 22, tinha o teclado original. Olhei, quis fazer uma bossa, taquei a interrogação de ponta-cabeça, todos acharam um grande recurso. A criação é misteriosa, porém menos do que se pensa.

Aquele poema, Caperucita, me rendeu um dez na primeira prova de espanhol que fiz e tornei-me um dos queridinhos da professora. Passaram os anos, muito anos, talvez 30. Uma noite, meados dos anos 1980, eu estava na Livraria Cultura autografando O Beijo Não Vem da Boca. Uma jovem se aproximou, tímida:

“Trouxe minha avó. Ela disse que deu aulas para o senhor em Araraquara. Não acreditamos. Imagine, ela ter dado aulas ao escritor! Mas ela insistiu, quis vir”.

“Aulas de quê?”

“De latim, depois de espanhol.”

Levantei-me, perguntei àquela senhora de ar plácido:

“Isaura Cordioli?”

“Sim, lembrou-se? Tantos anos!”

Abracei-a, vi lágrimas em seus olhos e, em seguida, no rosto da neta.

“Como esquecer? Nunca. Ainda me lembro de Caperucita.”

“Não é possível.”

“Caperucita, la más pequena de mis amigas...”

Os olhos de Isaura se iluminaram, ela completou:

“... en donde está...”.

Terminamos juntos, emocionados:

“Al viejo bosque se fue por leña, por leña seca para amasar”.

Isaura estará viva ainda? Até hoje não entendi o sentido deste amasar.

*

PS: Todas as terças-feiras, às 21 horas, continuamos, Rita Gullo, minha filha, e eu no show literomusical Solidão no Fundo da Agulha. No Teatro Eva Herz, Livraria Cultura, Conjunto Nacional.

 

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