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Caos estratégico

Imagens de jaulas foi demais para o homem que chamou mexicanos de estupradores

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 02h00

“Quando alguém lhe mostrar quem é, acredite na primeira vez.” 

(Maya Angelou)  

O som das crianças chorando, chamando por “mami” e “papá” partiu o coração dos que têm um. De repente, republicanos e até eleitores que apoiam quase tudo o que ele faz engasgaram. A repetição das imagens de jaulas e do choro das crianças foi demais para o homem que anunciou sua candidatura chamando mexicanos de estupradores. Demais por ótica, não por compaixão. Afinal, num encontro a porta fechadas, na terça-feira, com deputados republicanos, ele disse que as imagens pegavam mal, não a política de arrancar crianças de até 3 meses de seus pais.

Mas quem, além de coração, tem consciência e memória não pode negar: Nada, nada do que vimos nos últimos dias ou nos 18 meses anteriores deixou de ser anunciado e prometido durante a campanha presidencial. Muitos, especialmente na mídia, espalharam a gracinha cunhada pela solícita jornalista Salena Zito, quando o então candidato soltou mais uma estatística fictícia: “Quando ele diz coisas como esta, a imprensa ouve literalmente; mas seus eleitores o levam a sério, não literalmente.”

Não, Salena, era literalmente o que ele pretendia fazer. O problema foi o partido e suas maiorias na Câmara e no Senado, além de boa parte dos jornalistas como você não terem levado suficientemente a sério os anúncios literais.

Não há aumento de crise de imigração nos Estados Unidos. Menos mexicanos entraram no país do que saíram na última década e só 14% dos que saíram foram deportados, 61% deles voltaram por vontade própria para se reunir à família, como demonstra uma pesquisa demográfica recente.

Barack Obama deportou mais imigrantes sem documentos do que Bush pai, Clinton e Bush filho. Embora tenha orientado os agentes federais a se concentrar em imigrantes com ficha criminal, Obama fez uma aposta que se revelou um fracasso semelhante à sua política de paz e amor com Vladimir Putin que desaguou na invasão da Ucrânia. Ele ofereceu os 2,7 milhões de estrangeiros deportados como sacrifício no altar da reforma da imigração que os republicanos não tinham a mais longínqua intenção de lhe conceder.

Obama, incorrigível Pollyanna da racionalidade que Washington rejeita, achou que estava trocando o grande reforço da segurança na fronteira por, entre outras reformas, um caminho que levaria 800 mil jovens trazidos pelos pais ilegalmente a se tornar cidadãos americanos. Nem Obama, nem o Partido Democrata foram a favor da “fronteira aberta”, como o homem tuíta sem parar.

As milhares de crianças que estão para sempre perdidas de seus pais, por causa da decisão de usá-las como reféns e propaganda para a eleição de novembro são órfãs também de democratas, em seu despreparo e incompreensão de até onde seus adversários políticos vão.

Apenas os republicanos que estão caindo fora desta distopia e desistiram de se candidatar à reeleição admitem: o caos da semana passada foi fabricado. Não havia emergência, não havia plano, não havia infraestrutura para deter as crianças. E, numa semana em que o Washington Post contou 14 versões diferentes do governo federal sobre o que se passava na fronteira – isto antes da canetada em que o presidente voltou atrás – continua não havendo clareza ou coesão sobre as soluções.

Na véspera de bater em retirada por causa das imagens que pegavam mal, o presidente disse a assessores próximos, segundo o New York Times, que as imagens pegavam bem. Separar famílias era a melhor solução e “a minha gente” adora, teria dito. Ele está certo. Muitos, entre a “sua gente” - o único país que ele acredita ter sido eleito para governar - adoram. O caos não era involuntário. Era estratégico.

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