Marcos Haupa/Reuters
Marcos Haupa/Reuters

Caos econômico, pancadaria e futebol argentino inspiram livro

'As Três Balas de Boris Bardin' é a primeira obra do espanhol Milo J. Krmpotic publicada no Brasil

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

23 de julho de 2012 | 12h58

A crise argentina dos anos 1980 dificulta a vida de Boris Bardin e seus dois irmãos. E, não bastasse a dificuldade em sobreviver à péssima situação financeira, Boris alimenta ainda uma vingança de quem lhe deu três tiros que o deixaram inválido. Ao mesmo tempo, um investigador chega na cidade para averiguar o roubo de um carro forte.

O tom policial, a fervilhante sequência de frases, o retrato nada edulcorado de uma sociedade corrompida, tudo, enfim, contribui para prender a atenção no livro As Três Balas de Boris Bardin, primeiro livro do espanhol Milo J. Krmpotic publicado no Brasil, pela editora Tordesilhas.

 

Influenciado pela linguagem cinematográfica, Krmpotic prepara a história para um final de tirar de fôlego. Sobre sua técnica, ele respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Por que uma Argentina noir?

A verdade é que, numa primeira versão de poucas páginas, o livro era ambientado na Ucrânia. Afinal, primeiro foi a história, essa mistura de vingança e mortes estúpidas, que me veio sugerida por duas notícias de jornal. Mas logo me dei conta de que não conhecia muita coisa sobre a sociedade ucraniana. E que, por sua vez, tinha muito mais à mão outro país cujas estruturas sociais tinham desmoronado, e que permitia, portanto, uma trama com estas características (mas os personagens mantiveram seus nomes). Este país era a Argentina, claro, uma terra que sinto muito próxima (sou filho de argentinos, tenho família lá e já visitei o país diversas vezes) e pela qual, de certo modo, me senti maltratado (quando tentei me mudar para lá, nos anos 90). A partir desse ponto, o livro foi, pessoalmente, um exercício de (re)descobrimento, um desafio estilístico e uma diversão, pois me agradava muito experimentar com o romance “de gênero”. Quanto à violência, não era minha intenção enfatizar seu “sabor”, e sim seus dissabores, sua amargura. Não queria uma violência afetada nem gratuita, e sim realista. A violência mancha e mata. A trama a exigia e, se teria de mostrá-la, senti que era preciso fazê-lo com responsabilidade.

“Somente na Argentina, velho, somente na Argentina”, medita um dos personagens - seria esta a moral de um país ao qual não resta nada a esconder, porque já é sabido que cada um carrega consigo algo oculto?

Exatamente: a Argentina tem duas caras, e ambas são muito exageradas. Certa vez li uma notícia sobre a Copa do Mundo de 78: dizia-se que os militares saíam para celebrar as vitórias da seleção do país e levavam no carro prisioneiros políticos, transportando-os como passageiros; saíam “para comemorar” com as mesmas pessoas que, no dia seguinte, talvez fossem ser torturadas por eles, ou que ao menos retornariam às suas celas naquela noite. Dentro da alegria arrebatadora e extrema da maioria havia, portanto, pontos muito obscuros. Trata-se de algo que se repete na minha experiência. E só poderemos descobrir esta obscuridade se prestarmos atenção ou se nos faltar um pouco de sorte, mas, de certa maneira, ela já passou a fazer parte de nossa natureza.

A influência da linguagem cinematográfica é decisiva, não?

Estudei direção de cinema por dois anos, entre 1992 e 1994, e embora só tenha chegado a realizar um par de curtas-metragens bastante desajeitados, aprendi muito sobre técnicas narrativas. Por sua vez, meu romance adulto anterior, Sorbed mi Sexo, era de cunho experimental, trazendo mais um desenvolvimento de ideias do que uma ação propriamente dita. Assim, As Três Balas me permitiu trabalhar com esta herança. Creio que cada história exige um tratamento próprio, e esta, sendo um romance noir, gritava por este tom cinematográfico.

Há no romance uma dimensão carnal que se manifesta por meio da dor e do prazer. Por quê?

Os personagens se encontram num contexto de desaparecimento do Estado, de desproteção diante de uma terrível crise econômica e da violência que a acompanha. Somente suas famílias e parceiros lhes servem de âncora perante a realidade. Mas, por sua vez, a realidade se cola inevitavelmente às suas vidas particulares. A violência, para doer, segundo esta responsabilidade que eu comentava antes, deveria golpear, perfurar sua carne. E o prazer não escapa a esta norma terrível. Todos os episódios eróticos do romance escondem uma insatisfação, uma incapacidade, um desencontro. Não é por acaso que me meto no quarto dos personagens, que me meto nos seus banheiros, por exemplo. Não quero que o leitor se sinta um voyeur, e sim que me acompanhe na dissecação de suas ilusões e frustrações. E poucas produzem como resultado uma narrativa tão direta quanto as de recorte erótico.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.