Caos e vertigem

Grupo percorre, em momentos fortes, clarões e gritos, o vazio de um bairro

O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h10

A apresentação de Bom Retiro 958 Metros é o convite do Teatro da Vertigem a 60 espectadores para uma caminhada noturna por uma desolada região do bairro que fervilha durante o dia. Viagem de descobertas e incertezas. Cada sessão comporta esse numero definido de participantes para que a experiência tenha a densidade emocional de um rito. É o que imaginou o polonês Jerzy Grotowski ao propor o seu Teatro Pobre em contraposição ao acontecimento cênico ilusionista. O enredo estilhaçado forma metáforas para a megalópole. Pede a integração ou a repulsa física de quem anda os referidos 958 metros impregnados da energia concentrada em locais onde a vida está ou esteve submetida a grandes pressões.

Em obras anteriores do sempre audacioso grupo Vertigem, os ambientes foram sucessivamente igreja, hospital, presídio e o Rio Tietê. O espaço urbano como campo de experimentação artística. A proposta atual é fiel, portanto, à posição do encenador Antonio Araújo de não fugir da cidade, do coração das suas trevas em forma de ruínas humana e material. Do que se deformou ao ponto da não civilização. Ele é o artista da violência apesar dos seus modos reservados, das poucas e atenciosas palavras com os interlocutores, e até da calma só aparente. As cenas que imagina têm a antibeleza que dispensa desculpas. Delas não se esquece.

Bom Retiro, o espetáculo, se anuncia como investigações sobre o comércio de roupas (a moda e seu consumo), a imigração e suas tensões e as relações de trabalho nem sempre claras. Cumpre a primeira parte. A região atualmente é um labirinto de vitrines, uma terra de ninguém lotada de compradores em horário comercial. A encenação cria em torno dessa atividade uma fantasmagoria em que manequins e compradoras delirantes se assemelham. Não por acaso, quem sabe, e seguramente muita ironia, a representação tem início na Rua Cesare Lombroso, o cientista italiano conhecido por suas teorias sobre os indivíduos predispostos ao crime a partir de características físicas e mentais. Hoje, o Lombroso paulistano virou um shopping mall que leva seu nome. Paralelo à Rua Aimorés, a lendária via de prostituição no passado.

O que a romaria teatral destaca é a aglomerada solidão dos que nada sabem do bairro, as noivas de verdade e as de plásticos, as sacoleiras e o viciado em crack que narra de forma caótica o que se passa nos becos e desvios. Quando a noite cai, acontece um vampirismo ao contrário. Somem vítimas e dráculas. Fica apenas o vazio mal iluminado e os rangidos dos trens de subúrbio.

O espetáculo concentra-se quase exclusivamente nesse lado do Bom Retiro. Seu bravo passado italiano, judaico e grego está relegado a referências pontuais. Todo um universo de imigração trágica em decorrência de duas guerras mundiais e sangrentas práticas antissemitas na Europa Central foi ignorado. Pena porque, além do teatro, o Bom Retiro que já foi recanto campestre dos ricos de outrora (atenção ao seu nome) é desde o fim do século 19 um sambaqui histórico-cultural com camadas de viagens em 3.ª classe, pensões de imigrantes, apátridas, foragidos, lenocínio, violência policial, mas igualmente artes e vida universitária (a Escola Politécnica e a Faculdade de Odontologia da USP - hoje Oficina Cultural Oswald de Andrade). A luta anônima, segredos e culpas dos que vieram de longe e a guerra política como a Revolta de 1924 (há marcas na Rua João Teodoro).

Nas últimas décadas, chegaram os coreanos e agora o bairro é o subterrâneo de clandestinos bolivianos e paraguaios (que já se rivalizam). As costureiras em cena são quase diáfanas, melancólicas como moças de poema. A verdade do trabalho escravo é bem pior. Há máfias por ali e não se fala delas. A maioria judaica do início do século 20 se instalou em pontos melhores da cidade. Mas a memória dos pioneiros e um clima emocional flutua nas esquinas, na sinagoga, nas derradeiras lojas deles, a lembrança do restaurante Buraco da Sara e na quase ruína da Casa do Povo, teatro, centro cultural e ideológico (a esquerda da comunidade) onde a caminhada cênica termina com pouca informação relevante sobre o extinto Teatro Israelita-Brasileiro (Taib).

Os manequins atirados nas caçambas de lixo acentuam certa visão cósmica do Vertigem, se é bem o termo. Uma ideia de calvário. Pratica-se a reiteração de apocalipses no estilo de atuação e na dramaturgia de costuras ou colagens de fatos (dificultando se perceber o que é o original do escritor Joca Reiners Terron). Um teatro de momentos fortes, clarões e gritos. O grupo tem sua força e sua fragilidade no próprio nome. É tudo intenso e pessimista, o que inclui interpretações entrecortadas com iluminação misteriosa e som inquietante. Vertigem. Em meio à representação, outra realidade paulistana passa nos ônibus do Jardim Fontalis (o leitor sabe onde fica?). Os passageiros com ar cansado observam aquela tentativa de testemunho sobre desenraizamento e alienação na cidade que não tem mais fim.

Crítica: Jefferson Del Rios

O grupo tem sua força e sua fragilidade no próprio nome - Vertigem. É tudo intenso e pessimista, o que inclui interpretações entrecortadas com iluminação misteriosa e som inquietante

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