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Caos calculado

Em sete anos caiu em 15% o número de empresas que trabalham com cultura no País

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 03h00

Antes das desgraças da semana que amanhã chega enfim ao fim, até que nos divertimos um pouco com a insânia presidencial. Acusar Leonardo DiCaprio de financiar as queimadas na Amazônia foi demais. Embora, no fim das contas, frustrante. Ficamos esperando que o presidente acusasse Brad Pitt de haver financiado Adélio, o esfaqueador acidental, e Angelina Jolie de insuflar populações indígenas contra garimpeiros e madeireiros no Cerrado, e nada. 

Não sei se faltou imaginação ao capitão ou seus áulicos o convenceram de que ele fora longe demais em sua demente escalada acusatória. Ou, hipótese mais provável, era só aquilo mesmo: uma mentira bem espalhafatosa para desviar a atenção das investigações sobre as alegadas ligações dos Bolsonaro com as milícias e o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes y otras cositas más. 

Pois esse é o jeito de governar do capitão, fiel discípulo de Steve Banon, o Maquiavel digital da extrema-direita internacional, o estrategista do “caos calculado”, para quem uma fake news mil vezes repetida talvez não vire verdade, mas espanta, atemoriza e distrai a patuleia e o comentariado político. Trump também governa assim, o vade-mécum é o mesmo.

Que outras patranhas inacreditáveis não estarão engatilhadas para envolver sob espessas cortinas de fumaça as eventuais consequências da barbeiragem contábil da equipe do Guedes denunciada pelo Financial Times e do powerpoint de Joice Hasselmann, também na quarta-feira? 

Para sorte do capitão e nosso azar, não lhe faltam parceiros na contínua ramboiada a que seu governo se reduziu. Quando não é ele a disparar disparates diversionistas, seus ministros e apaniguados se incumbem de provocar estupor e troça, com uma proficiência jamais manifesta nas funções para as quais são sustentados com os nossos impostos. 

Escolhidos pela mesma lógica das provocações presidenciais, formam um bando de ineptos sicofantas, mentalmente abduzidos pelo olavismo, de quem até a direita minimamente ilustrada e civilizada prefere guardar distância. 

Terraplanistas, tartufos evangélicos, revisionistas boçais, eles se superam quase que diariamente na vã tentativa de desqualificar a racionalidade, a ciência, a cultura, a religiosidade humanística e a convivência diplomática. Não administram nem protegem, apenas destroem o que lhes cabe gerir e resguardar, sejam florestas, princípios civilizatórios, verdades históricas, evidências científicas, e o que mais esteja aos cuidados dos ministérios do Meio Ambiente, da Educação, da Cidadania e das Relações Exteriores, não por acaso os mais afinados com a política de terra arrasada do bolsonarismo.

A bizarra expiação de Leonardo DiCaprio pelo duce do Planalto mal começara a provocar gargalhadas mundo afora, quando o novo presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, youtuber monarquista e orgulhoso cobaia de uma bem-sucedida olavagem cerebral, e Danilo Mantovani, novo presidente da Funarte, ambos nomeados pelo secretário de Cultura Roberto Alvim, aquele que recentemente agrediu Fernanda Montenegro, iniciaram uma cruzada obscurantista contra Caetano Veloso, os Beatles e outros que, em sua obtusa visão, incentivaram entre nós o analfabetismo, o consumo de drogas e o aborto. 

Imaginem que males terríveis esse trio deve atribuir à insaciável “satisfaction” e à “simpatia pelo diabo” dos Rolling Stones. 

Com essa malta de brucutus indisfarçavelmente movidos pela inveja e pelo ressentimento comandando a cultura, estrangulando o melhor do cinema brasileiro - logo agora, numa de suas fases mais fulgurantes -, só os muito otimistas não receiam uma nazificação em massa das artes e da reflexão no país, pari passu com as grotescas intervenções no sistema educacional da pastora Damares “Eu vi Jesus na goiabeira” Alves e do semianalfabeto Abraham Weintraub, que no período de um mês cometeu 33 erros de português em sua conta no Twitter.

Em sete anos caiu em 15% o número de empresas que trabalham com cultura no País. Quantas mais não encerrarão suas atividades até o fim desse pesadelo em que nos meteram? 

Minha ideia inicial para esta coluna era traçar alguns paralelos entre dois aniversariantes (os 51 anos do AI-5, baixado pela ditadura militar em 13 de dezembro de 1968, e os 80 anos do DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, criado por Getúlio Vargas, com total apoio dos militares, em 27 de novembro de 1939), mas, atropelado pelo massacre de Paraisópolis, entre dar uma de Adorno e não ver sentido em escrever sobre qualquer outro tema diante daquele ato de selvageria armada, optei pelos absurdos que mais diretamente têm afetado e podem afetar ainda mais nossa maneira de pensar, fazer e consumir cultura. 

Quando Hitler implantou o 3.º Reich, Goebbels passou a cuidar pessoalmente da informação e da propaganda do regime nazista - do DIP alemão, enfim. Infinitamente mais ladino e culto que todos os auxiliares de Bolsonaro juntos (bem, isso Lourival Fontes, o mandachuva do DIP, também era), Goebbels planejava entregar a Fritz Lang os destinos da indústria cinematográfica alemã. Outro nível.

Goebbels chegou a conversar com o cineasta, em palácio. Mas Lang, a bordo de uma desculpa esfarrapada, largou a mulher e fugiu para a França e, em seguida, Hollywood. Foi aí que a eminência parda do führer fixou sua atenção em Leni Riefenstahl, cujo superlativo talento ninguém põe em dúvida.

É preciso certa cautela ao compararmos o Brasil de 2019 à Alemanha de 1933-1945. 

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