Cantuária de fora para dentro

Mais reconhecido no exterior do que aqui, ele está de volta com um sofisticado CD

LAURO LISBOA GARCIA, RIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h07

Desde que trocou o Rio pelo Brooklyn (Nova York) em meados da década de 1990, Vinicius Cantuária tem lançado álbuns regularmente no exterior, é bastante requisitado no circuito internacional de jazz, mas nesse tempo só teve um CD editado no Brasil (Tucumã, de 1999), sem grande repercussão, e nunca mais fez shows por aqui. Agora ele está de volta com o sofisticado álbum Samba Carioca (Biscoito Fino) e se prepara para voltar aos palcos cariocas. Amigo do guitarrista americano Bill Frisell há dez anos, também vai ter outro trabalho com ele, Lágrimas Mexicanas, lançado por aqui em 2012. "Temos convites para ir a Buenos Aires, Santiago e Montevidéu. Vai ser uma vergonha não tocar no Brasil", diz Cantuária.

Entre composições inéditas, sozinho ou em parcerias com Marcos Valle, Arto Lindsay, Paulo Sérgio Valle e Liminha, ele regravou dois clássicos bossa-novistas da década de 1960, Vagamente (Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli) e Inútil Paisagem (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira). Compositor e instrumentista múltiplo (violão, bateria, teclado, percussão), Cantuária é apontado por críticos internacionais como uma espécie de "novo Tom Jobim".

Para ele a referência é bem-vinda, mas ao mesmo tempo revela que na visão do estrangeiro a música brasileira não se renovou, por isso se fala sempre nas mesmas pessoas. No novo CD, além de feras do jazz - Frisell e o pianista Brad Mehldau - Cantuária reuniu outros grandes músicos brasileiros referenciais: os pianistas João Donato e Marcos Valle (representantes de duas fases da bossa nova) e os três contrabaixistas Luiz Alves (do lendário grupo Som Imaginário), Liminha e Dadi (do universo pop tropicalista).

De certa forma, reunindo músicos atuantes e renovadores até hoje, é que ele prova que há continuidade na música brasileira. "Juntei esses caras todos propositalmente para provar que essas coisas estão todas aí, é só você pinçá-las." Ao mesmo tempo, o tom do CD é nostálgico. "Quando gravei esse disco lá fora em 2009, pensei no Rio dos anos 1960/70. Eu era garoto, mas me lembro que as pessoas diziam que iam no Chico's Bar. Você tinha essa referência do pianista no bar, tocando aquele tipo de repertório."

O que ele expressa, no entanto, não é o saudosismo típico de quem vai morar em terra estrangeira, até porque ele visita o Brasil regularmente. "O espírito é de saudade desse movimento de música que não existe mais. As pessoas acham que vêm pra cá e em todo lugar vai ter alguém com um banquinho e um violão. Hoje isso existe só na nossa fantasia."

Cantuária costuma dizer que foi morar fora para ser mais brasileiro, porque lá não precisa fazer as concessões que tinha de enfrentar aqui. "Fui embora para poder arranjar minha música, arranjar minha cabeça, perspectivar minha própria obra, mas de uma maneira muito natural. Daí cheguei a uma sonoridade", diz.

Trabalhando com músicos japoneses, ingleses e norte-americanos, ele diz que brasileiros na plateia de seus shows são minoria. "Não trabalho com a saudade alheia. Não toco para brasileiro que está com saudade de mim. Brasileiros não têm saudade de mim, têm do Caetano Veloso, do Chico Buarque, pessoas que marcaram a vida deles, eu não marquei nada."

Até por conta de não ter nenhum compromisso com esse saudosismo é que ele diz que seu trabalho "está rodando bem lá fora". "Na música do Brasil que os americanos e europeus conhecem, a gente tem um triângulo formado pelo Tom Jobim, pelo Dorival Caymmi, dois compositores, um mais sofisticado e outro mais popular, e João Gilberto como intérprete, que chegou nos dois e mandou isso para o mundo. Temos um quadrado formado por Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, e o círculo, que somos nós, porque a gente fica correndo de um lado para o outro sem chegar a lugar nenhum", compara.

A propósito, o autor e intérprete do hit Só Você tem parcerias com Chico (Ludo Real) e Caetano (Sutis Diferenças) e obteve na voz do baiano um de seus maiores êxitos, Lua e Estrela. "Foi um sucesso pop, que me ajudou e me atrapalhou, as pessoas ficavam esperando que eu repetisse aquilo", diz. "Desde 1994 não dependo do Brasil para nada. Tudo o que me acontecer aqui agora vai ser muito bom."

Contratado da gravadora francesa Naïve, seu próximo voo vai ser mais alto. Em 2012 Cantuária planeja gravar um CD - que já tem título provisório, As Ilhas - só com trios de baixo, piano e bateria, como João Donato, Robertinho Silva e Luiz Alves; Herbie Hancock, Jack DeJohnette e Ron Carter.

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