Cantos aquáticos ou o amor é líquido

Leia a seguir poemas do escritor paulista Moacir Amâncio - professor de literatura hebraica da Universidade de São Paulo -, que farão parte do livro Matula, sem data prevista para publicação

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Das águas

Desconhecida pelo nome científico,

thunbergia mysorensis e sua sinonímia

hexacentris

mysorensis, pertence à família acanthaceae,

divisão angiospermae.

Navega entre a Índia e o universo

antes de adquirir feições de oceano em

expansão natural.

Ou cruza do vermelho ao castanho

com engastes verdes

para justificar o sorriso.

Chove ao sol

*

entras nesta sala

e tudo inundas

o mar começa

em teus pés

são de água

esses teus passos

teus anversos se desdobram coleções

ao dedilhar

as lâminas reflexos contra o chumbo

o se desfaz luz em folhas

cristal lacrado

*

o saber da ostra

a fala salobra

o sol liquefeito

entre os lábios

tantas eloquências

redondos cardumes

ardentias roxos

lagar os humores

desfeitos em bocas

desfeitos em sólidos

gemidos a cal

*

o que se expõe continente

no desenhado por sombra

seria portanto espaço

assim se refere a luz

contra a lua aberta e

revela a extensão do sol

e de novo apaga a lua

qual sem o dia se oculta

atrás dessa estranha luz

*

Mote para suíte ouro-pretana

estrela viva

o quase

líquido permanece

na bateia

sem

mãos

onde a gota

perfaz

a si própria

e se dobra

no ar

*

caminhar

pelos rastros

que a sombra

deixa à luz

final

de tarde

*

manuscrito encontrado

ou não

assim permanece

no ar

na água

concha e lesma

prumo

*

a ferramenta

que trabalha o ar

algum modo capaz

de expor a lua

a árvore nesse vento

soletra-se

a

*

nada ficará do abutre

em seu mergulho no céu

esse deserto avaro

soma todas as sombras

*

a escrita na água

permanece movimento

e modo

a mão inclinada

espera a chuva

*

a dispersão o granizo

essa persistência

ninguém colhe

para o dia

nem para o sábado

*

ouro oculto em cada mão

um cipreste

quando o fogo

*

Anti-esfera muriliana

Niemeyer tentou impor o projeto à

paisagem

que rejeita o concreto e Niemeyer

como na linha do Horizonte

a plataforma submarina

equívoco banal

pretende avançar contra o Céu

de tantas Babéis providenciais

Alex Raymond

O AUTOR

Nome: Moacir Amâncio

Idade: 62

Origem: Pinhal (SP)

Principais obras: Do Objeto Útil e Figuras na Sala (Iluminuras), O Olho do Canário (Musa Editora), Contar a Romã (Globo) e Ata (Record; reunião dos livros de poemas anteriores e obras inéditas)

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