Cantores do Brasil

Muito se fala que o Brasil #233; um pa#237;s de cantoras e #233; verdade. Desde Ademilde Fonseca, a primeira mulher a se atrever num chorinho, #224;s grandes divas da era do r#225;dio, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Aracy de Almeida, depois Gal Costa, Beth#226;nia, a lista #233; infinda. Temos muitas cantoras/compositoras como a pioneira Dolores Duran, a sombria e maravilhosa Maysa, a dama do samba Dona Ivone Lara e seguindo o fio da meada Marina Lima, Angela Ro Ro e ainda Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Z#233;lia Duncan e a expoente m#225;xima dessa gera#231;#227;o - que nunca assumiu uma autoria mas que fez uma enorme diferen#231;a, C#225;ssia Eller.

Patricia Palumbo e MPB, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Da nov#237;ssima gera#231;#227;o tenho falado muito e gra#231;as ao meu trabalho no r#225;dio acompanho bem de perto. Acabei de produzir um CD pela gravadora Joia Moderna, o Literalmente Loucas - As Can#231;#245;es de Marina Lima, reunindo 12 dessas meninas: Tulipa Ruiz, Anelis Assump#231;#227;o, Andreia Dias, Marcia Castro, Claudia Dorei, Karina Zeviani, Graziela Medori, Joana Flor, Karina Buhr, Iara Renn#243;, Nina Becker e B#225;rbara Eug#234;nia. O trabalho revela a diversidade do momento atual do pop brasileiro, cada uma das faixas tem um acento diferente, uma personalidade #250;nica e inteligente de alt#237;ssima qualidade.

Agora, e os cantores? Ser#225; que n#227;o #233; injusto dizer que esse pa#237;s n#227;o #233; deles? Francisco Alves - o cantor das multid#245;es; Orlando Silva - o rei da Voz. O charmoso M#225;rio Reis, o primeiro cantor de microfone que, ao contr#225;rio dos aqui citados #237;dolos, tinha voz pequena e portanto adequada ao sulco no vinil captado pelo poderoso advento tecnol#243;gico. E Cyro Monteiro? Que divis#227;o, que suingue! E o grande Jamel#227;o arrastando escolas de samba! Cauby Peixoto! Esse, o #250;ltimo dos gal#227;s do r#225;dio ainda na ativa. No livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, consta que Cauby estava t#227;o determinado a ser pop star que teria trocado todos os dentes por uma pr#243;tese para parecer mais atraente #224; juventude, mesmo que sua voz soasse como a de um senhor. Deu certo. O homem foi um fen#244;meno! Quando eu era ainda uma iniciante no r#225;dio tive a oportunidade de entrevist#225;-lo e foi uma das melhores experi#234;ncias profissionais que j#225; vivi. Levei uma pilha de LPs pro est#250;dio e fui comentando com ele seus grandes sucessos. Cauby, ass#237;duo frequentador das ondas sonoras nos tempos em que esse era o melhor dos mundos, falava comigo e tamb#233;m com o microfone. Ciente da magia do ve#237;culo e do poder de sedu#231;#227;o da sua voz ele se dirigia diretamente #224;s suas f#227;s e falava no ar como se estivesse diante delas. Um mestre!

E entre nossos cantores tamb#233;m h#225; uma enorme diversidade de estilos, #233; claro. At#233; no mesmo g#234;nero. Paulinho da Viola com aquela profundidade suave e Martinho da Vila com a malandragem simp#225;tica, quase cl#225;ssica. Luiz Melodia #233; pra mim um dos maiores, uma voz que n#227;o perde a juventude, absolutamente encantador. Ney Matogrosso, cantor por excel#234;ncia, criador de cl#225;ssicos, #233; dessas vozes que eternizam uma can#231;#227;o. Caetano Veloso, em fases em que composi#231;#227;o n#227;o vem t#227;o linda e forte, grava como int#233;rprete e canta maravilhosamente. Sobre Milton Nascimento nem me atrevo a falar, s#243; recomendo ouvir em caso de d#250;vida, Native Dancer, disco que ele dividiu com Wayne Shorter.

Mas temos hoje uma diferen#231;a interessante com rela#231;#227;o ao tempo em que se chamava o Brasil de um pa#237;s de cantoras ou em que o vozeir#227;o de peito #233; que fazia fartura. Tenho a impress#227;o que a mudan#231;a come#231;ou com a turma dos cantautores, como define Lenine. Temos nessa gera#231;#227;o, da qual ele faz parte, Paulinho Moska, Zeca Baleiro e Chico C#233;sar, por exemplo. S#227;o excelentes cantores, Moska cada dia melhor. Mas n#227;o #233; o que mais importa em seus trabalhos. Uma parte da gera#231;#227;o seguinte segue pelo mesmo caminho. L#233;o Cavalcanti tem um timbre deliciosamente diferente e canta bem. Mas o seu Religar #233; um CD de autor. R#244;mulo Fr#243;es lembra at#233; Paulinho na Viola na sutileza do registro mas #233; mais no discurso, na coer#234;ncia da obra que se encontra a similaridade. Domenico Lancelotti e Kassin fazem discos deliciosos e cantam como o namorado no seu ouvido, sem pretens#245;es mas bem gostosinho.

Ainda assim h#225; os que se esmeram no of#237;cio de soltar a voz. Thiago Pethit acaba de voltar da Fran#231;a onde fez canto erudito. Filipe Catto #233; um rar#237;ssimo contratenor. Bruno Morais fez aulas de canto com Suely Mesquita, uma fera na prepara#231;#227;o vocal, e #233; um charme com seu jeito cool de bem-comportado carioca. Diogo Po#231;as lembra M#225;rio Reis.

S#227;o muitos e s#243; pra confirmar a teoria antropof#225;gica tropicalista que vai at#233; o am#225;lgama de Jorge Mautner, de uma variedade inacredit#225;vel. O pa#237;s que mistura e transforma como nenhum outro n#227;o #233; s#243; o pa#237;s das cantoras ou dos cantores, #233; o pa#237;s da can#231;#227;o. E digo sem medo de me repetir, aqui canta quem tem o que dizer.

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